14/06 2008
O Acontecimento de M. Night Shyamalan

Há algumas semanas postei aqui o trailer de Fim dos Tempos (The Happening, no original), novo filme do M. Night Shyamalan, que estreou hoje. Até gerou bastante discussão nos comentários, mostrando que, para o bem ou para o mal, ele é hoje um dos diretores mais relevantes que tem, tanta briga há entre os que o amam e o odeiam.

Pois bem, os detratores vão adorar esse novo filme. Não que ele seja ruim, mas é o filme errado pro Shyamalan nesse momento da carreira dele.

Isso porque é um assumidamente um filme B (e muita gente confunde filmes B com filmes ruins). Mas é um filme B extremamente bem dirigido. O que não tira o fato de ser B e de ser, talvez, o pior do diretor (todo filme merece um tempo pra digerir, então ele pode acabar passando Sinais e Dama da Água).

Por isso, numa época em que ele é tão contestado e discutido (vide esse artigo “Shyamalan Defendido”, que conheci através do Discreto Blog da Burguesia), o ideal era ele ter feito um filmaço pra não dar pano pra manga pro povo que tem birra.

Aí vocês podem vir citando exemplos como o do Robert Rodriguez com Planeta Terror e do Tarantino com À Prova de Morte. Pois bem, eles quiseram fazer filmes trash dos anos 70 e fizeram um filmes trash dos anos 70. Ambos sempre foram mergulhados em referências, sua marca registrada é beber da fonte dos outros e fazer algo legal disso. Já o Shyamalan, sempre foi mais “autoral”, no sentido de que ele dá a sua cara às referências em vez de fazer tributos a elas, como o Taranta costuma fazer. Então, não bastava para ele fazer um filme B. Tinha que ser um filme B com a marca dele.

Mas sobre Fim dos Tempos, leia mais na continuação do post. Aliás, tem alguns SPOILERS.

Os filmes do Shyamalan sempre são calcados em algum tema forte que é bem colocado nos filmes, sem ser forçado ou óbvio demais. Em Sexto Sentido e Corpo Fechado, ele falou sobre o auto-conhecimento e a auto-aceitação (Cole precisa entender e aceitar sua estranha condição e tornar ela uma aliada, não um tormento, embora no fim das contas a gente perceba que na verdade aquilo também se aplica ao Dr. Malcolm, quando ele começa a compreender que está morto; e em Corpo Fechado, David Dunn precisa compreender e aceitar seu poder, para que dessa forma o Elijah Prycemelhor vilão da história do cinema IMO – possa compreender a si mesmo), em Sinais ele fala sobre a , em A Vila sobre o medo e, por fim, em A Dama da Água, critica o ceticismo.

Em O Fim dos Tempos, ele meio que se divide entre uma crítica ao nosso descaso com o meio-ambiente e a compreensão de que nem tudo pode ser explicado. E ele falha, se compararmos com os filmes anteriores, pelo fato de não ter conseguido ser tão sutil e consistente como antes.

O filme começa com uma premissa realmente aterrorizante: por algum motivo, as pessoas na Costa Leste americana são infectadas com algo que anula o senso de preservação delas e as leva ao suicídio.

E nesse ponto, o diretor é sensacional, construindo cenas de morte ao mesmo tensas e aterrorizantes. Em alguns casos até divertidas, reforçando o caráter trash da coisa toda (ex: o maluco devorado por leões, os operários – ok, essa foi bem macabra, mas eu comecei a cantar mentalmente “It’s Raining Men” – e a morte da velha macabra). Aliás, essa velha do final me deu muito mais medo que o fênomeno do filme. Mas ainda sobre o humor, ele sabe trabalhar bem ele com o personagem do Mark Wahlberg, um protagonista que, apesar de cientista e inteligente, ainda tem seus momentos de imaturidade e é até meio bobalhão. O que cria cenas como a piada tosca da farmácia, a conversa com a planta de plástico, etc.

Aliás, o Mark está, como de costume, ótimo no papel. Há um bom tempo que ele vem tendo atuações bem consistentes. A Zooey Deschannel continua sendo a atriz meia-boca de sempre, mas ela é tão bonitinha e, principalmente, tão charmosa, que consegue fazer com que esqueçamos tudo isso. O John Leguizamo (outro cara foda) também está muito bem no seu pequeno papel. Aliás, é estranho demais vê-lo como um cara comum professor de colégio, ainda mais de vê-lo como o Violador, Toulose Lautrec e Teobaldo. Ainda sobre o elenco, dessa vez o Shyamalan resolveu se conter e não aparece no filme. Pelo menos não fisicamente. Mas é dele a voz no celular do Joey, o amigo da personagem Alma.

Existem algumas cenas memoráveis, como a sequência que mostra o início do surto na Filadélfia. Acompanhamos todos os acontecimentos com uma câmera no chão, só até o joelho do policial que se suicida. Aí vemos o motorista saindo do carro, pegando a arma no chão e se matando. E assim sucessivamente. É uma aula de direção essa cena. Absurdamente climática.

Além disso, titio Shyamalan tem culhões: mata criancinhas a sangue frio, de forma violentaça.

Sobre o final meio Guerra dos Mundos (que é subestimadíssimo) , muita gente vai chiar, mas é absolutamente pertinente.

Agora, sobre os problemas. Bem, o filme fica o tempo todo indo do drama shyamalaniano ao filme B clássico e nunca se decide sobre o que verdadeiramente é. Isso compromete a honestidade do filme, e esse é um defeito que nunca antes pudemos apontar nos filmes dele.

Além disso, ele erra a mão feio em alguns momentos, tipo na conversa do final entre o Elliot e a Alma. Cheesy ao extremo o papinho romântico.

Somado isso ao fato de ter sido um filme na hora errada, podemos dizer que no geral foi um filme divertido do Shayamalan, mas poderia ter sido bem melhor.

Ainda vale a pena ser visto. Mas se quiserem esperar o DVD, não é nenhum absurdo não.

PS: só pra quem já viu (CONTÉM SPOILERS):

Gente, já que o filme é uma espécie de Uma Verdade Inconveniente versão Filme B e o diretor é o Shyamalan, que ganhou fama com finais inusitados, imaginem que legal e engraçado (afinal, é trash, né?) que poderia ter tido… Elliot, Alma e Jess saem das casas, se encontram no meio do campo e quando o casal vai se beijar, ambos começam a andar pra trás e essas coisas todas que rolam quando a galera vai se matar. A garota se desespera com os dois mortos e quando vai gritar, surge uma mão e segura a respiração dela. Ele diz “Calma, eu já sei o que fazer, está tudo sob controle”. A câmera abre e vemos ele: Al Gore!

Seria tosco demais, mas seria do caralho. Subiria meu conceito enormemente.

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Publicitário, blogueiro, produtor de festa e, pro azar de vocês, piadista.

2 Responses to “O Acontecimento de M. Night Shyamalan”

  1. Luis says:

    “Elijah Pryce – melhor vilão da história do cinema IMO”

    Eu adoro o Elijah porque a lógica dele é tão retardada. [SPOILERS DE CORPO FECHADO] Primeiro, ele acredita que, porque ele tem uma doença de fragilidade, deve *necessariamente* haver alguém no mundo que é o oposto dele: completamente indestrutível. Segundo, ele acredita que o jeito mais prático de encontrar esse tal Sr. Indestrutível é sair criando grandes catástrofes aleatóriamente, até que algum cidadão sobreviva uma delas (de um jeito particularmente inacreditável). Ou seja, ele só é um vilão porque ele pensou no plano mais idiota e destrutível possível. É isso que dá passar a vida toda lendo quadrinhos.

    Agora, se CORPO FECHADO fosse uma comédia, como devia ter sido, a idéia de um vilão tendo que encontrar um super-herói porque ele se sente incompleto funcionaria direitinho, e a noção de que ele seria tão idiota ao ponto de bolar o plano das catástrofes daria boas cenas de humor. Mas o Night não viu as coisas dessa forma.

    E: Zooey Deschanel é uma excelente atriz, especialmente em papéis cômicos (e.g. ARMAÇÕES DO AMOR). O problema é que o Night não sabe (mais?) como dirigir atores, e no caso de FIM DOS TEMPOS esse problema fica muito claro. A gente vai escrever mais sobre ele mais tarde.

    [Reply]

  2. Eu não vi a Armações do Amor. Só conheço a Zooey de Quase Famosos, Guia do Mochileiro das Galáxias e Um Duende em Nova York. E só nesse último acho ela OK.

    Sobre o Elijah, acho natural ele ser meio retardado. Com o problema dele, é normal a pessoa ser meio perturbada e se tornar um alucinado piscótico que não tem a lógica certa.

    [Reply]

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