17/01 2009
Cidade de Rama

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Jamal Malik está a uma pergunta de ganhar 20 milhões de rúpias. Como ele fez?

A) Ele trapaceou.
B) Ele é sortudo.
C) Ele é um gênio.
D) Está escrito.

É assim que começa Slumdog Millionaire (ainda sem título em português nem data de estréia no Brasil), filme que ganhou o Globo de Ouro no último domingo e tem tudo para levar vários Oscars também. E com justiça.

O título desse post é um brincadeira com Cidade de Deus, já que o novo filme de Danny Boyle (de Trainspotting, Cova Rasa, A Praia e Extermínio) é claramente influenciado pelo longa de Fernando Meirelles. Meirelles ensinou o mundo como filmar as favelas e seus habitantes de forma a passar toda a brutalidade do ambiente sem se esquecer da ternura e da esperança que existe em cada um que vive lá. E Danny Boyle aprendeu direitinho. Aliás, esperança é o grande tema de Slumdog (uma tradução literal do título seria Milionário Favelado).

Logo de cara, vemos o jovem Jamal Malik (Dev Patel, o Anwar da série Skins) apanhando da polícia, que suspeita que ele fraudou de alguma forma sua participação no game show mais popular da Índia, o “Who Wants to be a Millionaire?” (que aqui no Brasil passou como Show do Milhão e tinha apresentação de Sílvio Santos). E esse é o gancho para ele contar sua história, desde os tempos de criança, na favela de Juhu em Mumbai (que no começo do filme ainda se chamava Bombaim).

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Ali a gente acompanha a vida dele e do seu irmão Salim. E se por um lado a gente logo de cara simpatiza com Jamal, quando ele se joga num poço de merda para não perder a chance de pegar um autógrafo do seu ídolo, é com a mesma rapidez que começamos a sentir raiva do fdp do Salim, talvez o personagem da trama. Após verem a mãe ser assassinada num ataque de ódio racial (eles eram muçulmanos), passam a viver num lixão com a também órfã Latika, que logo se torna melhor amiga e amor de infância de Jamal. E é quando o aproveitador Maman leva as crianças para seu bando de ladrõezinhos e pedintes que a saga dos três começa para valer.

Ou melhor, dos dois irmãos, afinal a gente no fim das contas conhece muito pouco da Latika. Toda nossa torcida por ela e Jamal fica mais por conta do amor e da obstinação dele do que pelo que a gente vê dela. E embora a trama do filme seja essencialmente Jamal querendo encontrar Latika e ficar com ela, a relação que realmente move as ações é a dele com seu irmão.

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Salim se mostra um personagem interessante e complexo desde o começo. A verdade é que ele sempre foi um grandissíssimo babaca, vendendo o autógrafo do irmão por uns trocados, ou depois sendo uma espécie de capanguinha do Maman. Mas ele também sempre amou o irmão, pelo menos à sua maneira. Daí uma sequência fantástica por reunir ao mesmo tempo o Salim bom e o Salim escroto, quando ele salva Jamal de Maman, mas ao mesmo tempo deixa Latika pra trás. A partir daí os dois passam a viver de biscates e pequenas pilantragens ao redor da Índia, com direito a faturarem uma grana no Taj Mahal. E quando voltam a Mumbai e reencontram Latika, Salim mergulha de vez no lado negro se livrando de vez do fantasma do passado deles, mas ao mesmo tempo traindo seu irmão e o deixando sozinho. No ato final, tem uma grande virada e através da fé começamos a notar seu arrependimento e transformação que o levariam a um ato simples no fim, mas que significou a redenção quanto ao mal que ele fez com Jamal e Latika.

Aliás, o ato final é sem dúvida o melhor do filme. Já conhecendo melhor Jamal e tudo o que o levou até ali, ficamos genuinamente torcendo por ele no programa. A gente quer que ele acerte. A gente quer que o maldito celular seja atendido. E tudo com um misto de medo e esperança.

E afinal, o que vence é a esperança. Jamal não queria os 20 milhões, ele queria Latika, e sabia que a forma dela vê-lo seria ir em rede nacional no programa favorito dela. E quando já estamos emocionados com a vitória da esperança, Danny Boyle enfim homenageia Bollywood e temos créditos finais com uma cena musical típica das produções indianas. Depois do sofrimento, da luta e de tudo, enfim chega o que Jamal e Latika sempre quiseram: a alegria.

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Por isso que o filme deve levar o Oscar. Em ano de Obama, o que mais se fala é em mudança. Em transformação. Em mudança. E esse filme sintetiza tudo isso.

O prêmio de Slumdog Millionaire vai ser o de várias estatuetas de ouro, que, como diria o Sílvio Santos, valem mais do que dinheiro.

Publicitário, blogueiro, produtor de festa e, pro azar de vocês, piadista.

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