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Alan Moore estava certo? Sim e não.

Postado em : 07-03-2009 | Por : Alexandre Esposito | Em : Cinema, Mundo Nerd, Quadrinhos

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Depois de tantos posts, de tanta espera, provavelmente a pergunta na cabeça do leitor do Vida Ordinária é: afinal, essa porra de filme do Watchmen é bom ou ruim?

Deve agradar tanto a quem nunca leu como aos fãs.

Mas na verdade, não é nem bom nem ruim.

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E os méritos e problemas do filme em nada têm a ver com a fidelidade ao original, que está ali. E sim à falta de talento e noção ao bem-intencionado Zack Snyder (o cara claramente fez o filme com um carinho de fã, só não soube como). Ser visionário e inovador vai muito além de deixar um protagonista de filme com a piroca aparecendo o tempo todo (sim, o Dr. Manhattan aparece balançando o dito cujo azul neon o filme quase todo).

Para ficar fácil de todo mundo ler, vou dividir esse review em duas partes: primeiro para todos, de forma que quem não leu Watchmen não receba spoilers nem comentários sobre a adaptação, e depois para os fãs.

Para quem nunca leu Watchmen:

Pois bem, vocês devem no fim das contas se divertir. Afinal, a história é de fato muito boa e bem diferente de tudo que estamos acostumados a ver no cinema.

É uma abordagem inovadora, inteligente e sombria sobre como seria o mundo se houvesse heróis mascarados pela rua, ou até mesmo um super-herói com poderes. É mais universal do que pode ter parecido para quem viu só o trailer.

Méritos do Alan Moore, que 23 anos atrás escreveu uma história que ainda mantém sua força.

Além disso, tem boas cenas de ação e ótimas falas de alguns personagens, especialmente o Comediante (a cena sobre o “sonho americano” é excelente) e Rorschach.

Olha, eu fui numa sessão com muitas pessoas que não tinham a menor cara de ter lido a HQ e a vibração foi geral até entre estes no momento em que Walter Kovacs grita “Vocês pensam que eu estou preso com vocês? Vocês é que estão presos comigo!”.

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E é por isso que deve agradar, já que boa parte dos problemas são coisas que o espectador comum de cinema nao dá tanta bola. Como alguns aspectos da direção do Zack Snyder, brega, com excesso de slow motions (embora em menor quantidade que em 300) e problemas de ritmo, que são inaceitáveis, ainda mais um ano depois de vermos um filme como O Cavaleiro das Trevas.

Além disso, ele parece não saber quando fazer humor, quando ser caricato e quando ser violento. Uma cena de sexo fica excessivamente longa e pastelona, quando não deveria ser. Parece que ele pensou “ah, esses nerds nunca veem ao vivo uma mulher pelada, então vou dar a eles um bom tempo de sexo com a atriz (nem tão) gostosa (assim) pelada”. Nas ótimas cenas de luta, ele acabava perdendo a mão e mostrando graficamente fraturas expostas, membros mutilados, etc, num tipo de caricatura que funcionaria muito bem em Sin City, mas que ali ficou simplesmente deslocado. Se a idéia era mostrar violência, mais uma vez ele demonstra que precisava assistir O Cavaleiro das Trevas, um filme que sem mostrar quase nenhuma gota de sangue consegue ser mais denso e violento que a maioria dos filmes que almejam o mesmo.

E eu não sei se é porque eu já li, mas achei que em alguns detalhes ele entregou DEMAIS o que viria para frente, tirando de quem não leu a chance de se surpreender com os grandes plot twists da história.

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E ainda teve a trilha sonora… olha, se por um lado ele pensou certo em contextualizar com várias referências os anos 80, faltou inteligência para dosar isso. Porque ficou simplesmente ridícula uma cena em que um personagem está falando sobre novas energias, corporações, etc, tocando ao fundo a ótima Everybody Wants to Rule the World, do Tears for Fears. Aliás, a trilha como um todo foi inserida de forma pouco climática, parecendo mais música incidental de novela das oito do que trilha sonora. Exceção ao momento Unforgetable do começo do filme e aos créditos iniciais ao som do Bob Dylan (num flashback que pode mais confundir do que auxiliar o espectador leigo).

Sobre as atuações, Jeffrey Dean Morgan está perfeito, Jackie Earle Haley e Patrick Wilson também estão muito bem (embora esse último escorregue numa das suas últimas cenas, justamente quando tinha mais emoção envolvida). O sempre ótimo Billy Crudup tem sua performance comprometida pela tecnologia, já que os efeitos não foram suficientes para dar a naturalidade suficiente que seu Dr. Manhattan precisava (ele funcionou perfeitamente calado ou explodindo gente, mas na hora de bater um papo com alguém… só a voz calma e sem emoção do Billy que salvou). Malin Akerman foi fraca e Matthew Goode meia-boca (até melhora no final, mas simplesmente não foi a escolha certa para o papel, que exigia alguém que transmitisse mais austeridade e firmeza).

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Ainda nos aspectos técnicos, me parece que gastaram todo o dinheiro com o Dr. Manhattan e não sobrou nenhum para a maquiagem. A Espectral I e o presidente Nixon estavam sofríveis.

Mas como eu disse antes, são detalhes que acabam não incomodando a maioria das pessoas, que deve sair satisfeita do filme.

.

Agora quem leu pode conferir o resto do review, com spoilers e mais detalhes, depois do jump.

Para quem leu Watchmen:

Ok, vamos agora falar da adaptação. Pois bem, é fiel na medida do possível, e nenhum fã tem do que reclamar. Foi cortado o que era necessário para condensar o filme, e foi alterado o que era necessário para que ele pudesse ser coerente e de fácil compreensão para quem não leu. E querem saber? O final novo ficou bom.

E os problemas do filme residem mais no que foi mantido do que no que foi mudado. Afinal, eu disse ali em cima sobre a falta de ritmo. Pois é, e isso poderia ser facilmente resolvido na edição, caso o Zack Snyder se permitisse fugir um pouco da ordem da narrativa da HQ. Se ele desse mais dinâmica entre alguns trechos, talvez tudo fluisse melhor.

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Agora, vamos ser mais específicos sobre o que falei antes sobre ele entregar algumas coisas cedo demais. Na primeira cena entre o Dan e a Laurie, ele já suspira fundo e enche o peito quando ela entra. Ela, por sua vez, já olha pra ele com um olhar encantado. Qualquer um com meio neurônio saberia ali que eles iam se pegar. O Adrian, logo que fala do Comediante, faz uma carinha de “tenho um segredo obscuro e não tô pra brincadeira” que era impossível não suspeitar que o cara era o vilão. Isso sem falar nas várias dicas, desde o começo, de que o Comediante é o pai da Laurie. Ou seja, ele não deixava as pessoas que não conheciam a HQ descobrir cada segredo dela.

Quanto aos outros personagens, tivemos um Coruja que manteve quase o tempo inteiro um tom certo, revelando uma certa insegurança contida, misturada com uma vontade de reviver aquilo tudo. Na sua explosão final contra o Adrian, ele teve um over-acting ali, mas nada que comprometesse o que tinha feito antes. O Rorschach está um pouco mais humano, um pouco mais acessível. E deu muito certo. É como se ainda houvesse um pouco de Kovacs dentro do cara. E o Comediante é o mais fiel e bem construído dos 6. O que você viu nos quadrinhos está ali no filme, intacto, perfeito.

E se você que é fã quer apenas ver a HQ transcrita em cenas, vai adorar.

Se quiser, além disso, ver um grande filme, talvez ache meia-boca, ou, como eu, razoável.

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Comentários (8)

[...] então com uma resenha bem bacana que o Knolex fez no Vida Ordinária: Alan Moore estava certo? Sim e não. O legal aqui é que ele fez uma resenha para quem já leu as HQs e para quem não leu. E eu tenho [...]

[...] Alan Moore estava certo? Sim e não no Vida Ordinária. [...]

Acho que você foi no ponto. O filme é bacana, adorei ver certas coisas na tela, o Comediante e o Rorschach estão ótimos, mas de fato tem um monte de falhinhas e coisas que me incomodaram. Dá até pra fazer ma lista (bom, talvez faça e poste depois).

E eu não gostei do “final novo”. Ele até faz sentido e tal, mas eu prefiro bastante o da HQ. Quer dizer, nem sei se é o final em si ou a preparação para ele. Sei lá, acho que as pessoas podem ficar sem entender de fato as motivações do “vilão” e as boas consequências que elas trariam (ao ponto de eu ter que escrever “vilão” entre aspas).

Isso considerando que o Snyder, como você disse, foi bem intencionado e tentou manter detalhes na história que complicavam o ritmo da narrativa, aumentavam a duração e que fatalmente aumentariam a classificação do filme (ou seja, menos $$$ pros produtores), mas ainda assim pecou em detalhes como esses que você ressaltou. De repente, seja porque o Alan Moore estava certo e Watchmen realmente não seja adpatável pro cinema, nem adaptado por alguém que tenta manter a maior parte da obra original lá. Pelo menos não em um filme só, de 163 minutos.

[Reply]

Eu não acho que existe esse lance de história infilmável.

Só acho que a transposição literal de qualquer outra coisa pra outra mídia não funciona. Watchmen no cinema não pode ser como na HQ, porque são dois meios que têm dinâmicas BEM diferentes.

Até em situações similares a alteração já é necessária. Ou daria pra dizer que a versão em HQ de O Hobbit é igual ao livro?

[Reply]

Não é que seja “infilmável”. É que imaginando que é só um filme pra os 12 volumes, certas coisas da história da HQ seriam mesmo impossíveis de ser transmitidas em através dele, seguindo os padrões cinematográficos da indústria atual (filmes entre 2 e 3 horas, de preferência não mais do que 2, entre outras coisas)

Ou ele divide em 2 filmes (o que eu também não acho que seja a ser o caso, até porque a história de Watchmen é bem fluída, nem tem como dividir ela em 2 partes bem distintas, com começo meio e fim) ou se contenta que vai fazer o máximo possível pra chegar no original, mas sabendo que nunca vai chegar.

E quando eu digo “chegar no original”, eu nem digo recriar a graphic novel de forma idêntica. Isso seria patético. Eu digo chegar na “alma” da história, a sua essência, passar pro espectador o mesmo que a HQ, sem tirar nem por. Eu até acho que o Snyder conseguiu chegar mais perto do que a maioria dos diretores conseguiria (mesmo com todas as cagadas que você anotou no post – concordo com todas), mas a falta de desenvolvimento de alguns personagens prejudicou a conclusão e o entendimento completo das motivações de alguns personagens, pelo menos pra mim.

E c’mon, você me conhece e sabe que eu sempre estive do lado dos “adpatadores”, cineastas e roteiristas, nesses casos. Defendia o Peter Jackson na maior parte das reclamações dos fãs na época dos filmes de SDA. =P E sempre defendo que qualquer obra pode ser adaptada, assim como defendo que a adaptação deve ser julgada independemente da obra original. O máximo que você pode fazer é considerar a capacidade dos roteiristas de capturar a essência da coisa, na hora de comparar as obras. De resto, são mídias diferentes.

Só acho que no caso de Watchmen, é diferente. Não que chegue a inviabilizar o filme totalmente, mas o fato é que é uma história tão rica que fica meio impossível de ser contada através de um filme que segue os padrões da indústria (e esse até se desvia dela, o máximo que pode. E ainda não chegou lá).

[Reply]

[...] por Érico Borgo e na do Judão, por Thiago Borbolla. Outro post sobre o filme de Watchmen é do Vida Ordinária, dívidido em duas partes: para quem leu a graphic novel e para quem não [...]

[...] não considero Watchmen  um grande filme. Li a HQ antes de assistí-lo, e assim como meu camarada Alexandre Esposito, reconheci o “esforço” do Zack Snyder em tentar preservar as coisas mais importantes [...]

[...] sim, o Freddy é o Jackie Earle Haley, o Rorschach de Watchmen (que foi uma das poucas coisas que salvou o filme de ser bem fraco). bb_keywords = "A Hora do Pesadelo"; bb_bid = "9770"; bb_lang = "pt-BR"; bb_name = [...]

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