Depois de tantos posts, de tanta espera, provavelmente a pergunta na cabeça do leitor do Vida Ordinária é: afinal, essa porra de filme do Watchmen é bom ou ruim?
Deve agradar tanto a quem nunca leu como aos fãs.
Mas na verdade, não é nem bom nem ruim.

E os méritos e problemas do filme em nada têm a ver com a fidelidade ao original, que está ali. E sim à falta de talento e noção ao bem-intencionado Zack Snyder (o cara claramente fez o filme com um carinho de fã, só não soube como). Ser visionário e inovador vai muito além de deixar um protagonista de filme com a piroca aparecendo o tempo todo (sim, o Dr. Manhattan aparece balançando o dito cujo azul neon o filme quase todo).
Para ficar fácil de todo mundo ler, vou dividir esse review em duas partes: primeiro para todos, de forma que quem não leu Watchmen não receba spoilers nem comentários sobre a adaptação, e depois para os fãs.
Para quem nunca leu Watchmen:
Pois bem, vocês devem no fim das contas se divertir. Afinal, a história é de fato muito boa e bem diferente de tudo que estamos acostumados a ver no cinema.
É uma abordagem inovadora, inteligente e sombria sobre como seria o mundo se houvesse heróis mascarados pela rua, ou até mesmo um super-herói com poderes. É mais universal do que pode ter parecido para quem viu só o trailer.
Méritos do Alan Moore, que 23 anos atrás escreveu uma história que ainda mantém sua força.
Além disso, tem boas cenas de ação e ótimas falas de alguns personagens, especialmente o Comediante (a cena sobre o “sonho americano” é excelente) e Rorschach.
Olha, eu fui numa sessão com muitas pessoas que não tinham a menor cara de ter lido a HQ e a vibração foi geral até entre estes no momento em que Walter Kovacs grita “Vocês pensam que eu estou preso com vocês? Vocês é que estão presos comigo!”.

E é por isso que deve agradar, já que boa parte dos problemas são coisas que o espectador comum de cinema nao dá tanta bola. Como alguns aspectos da direção do Zack Snyder, brega, com excesso de slow motions (embora em menor quantidade que em 300) e problemas de ritmo, que são inaceitáveis, ainda mais um ano depois de vermos um filme como O Cavaleiro das Trevas.
Além disso, ele parece não saber quando fazer humor, quando ser caricato e quando ser violento. Uma cena de sexo fica excessivamente longa e pastelona, quando não deveria ser. Parece que ele pensou “ah, esses nerds nunca veem ao vivo uma mulher pelada, então vou dar a eles um bom tempo de sexo com a atriz (nem tão) gostosa (assim) pelada”. Nas ótimas cenas de luta, ele acabava perdendo a mão e mostrando graficamente fraturas expostas, membros mutilados, etc, num tipo de caricatura que funcionaria muito bem em Sin City, mas que ali ficou simplesmente deslocado. Se a idéia era mostrar violência, mais uma vez ele demonstra que precisava assistir O Cavaleiro das Trevas, um filme que sem mostrar quase nenhuma gota de sangue consegue ser mais denso e violento que a maioria dos filmes que almejam o mesmo.
E eu não sei se é porque eu já li, mas achei que em alguns detalhes ele entregou DEMAIS o que viria para frente, tirando de quem não leu a chance de se surpreender com os grandes plot twists da história.

E ainda teve a trilha sonora… olha, se por um lado ele pensou certo em contextualizar com várias referências os anos 80, faltou inteligência para dosar isso. Porque ficou simplesmente ridícula uma cena em que um personagem está falando sobre novas energias, corporações, etc, tocando ao fundo a ótima Everybody Wants to Rule the World, do Tears for Fears. Aliás, a trilha como um todo foi inserida de forma pouco climática, parecendo mais música incidental de novela das oito do que trilha sonora. Exceção ao momento Unforgetable do começo do filme e aos créditos iniciais ao som do Bob Dylan (num flashback que pode mais confundir do que auxiliar o espectador leigo).
Sobre as atuações, Jeffrey Dean Morgan está perfeito, Jackie Earle Haley e Patrick Wilson também estão muito bem (embora esse último escorregue numa das suas últimas cenas, justamente quando tinha mais emoção envolvida). O sempre ótimo Billy Crudup tem sua performance comprometida pela tecnologia, já que os efeitos não foram suficientes para dar a naturalidade suficiente que seu Dr. Manhattan precisava (ele funcionou perfeitamente calado ou explodindo gente, mas na hora de bater um papo com alguém… só a voz calma e sem emoção do Billy que salvou). Malin Akerman foi fraca e Matthew Goode meia-boca (até melhora no final, mas simplesmente não foi a escolha certa para o papel, que exigia alguém que transmitisse mais austeridade e firmeza).

Ainda nos aspectos técnicos, me parece que gastaram todo o dinheiro com o Dr. Manhattan e não sobrou nenhum para a maquiagem. A Espectral I e o presidente Nixon estavam sofríveis.
Mas como eu disse antes, são detalhes que acabam não incomodando a maioria das pessoas, que deve sair satisfeita do filme.
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Agora quem leu pode conferir o resto do review, com spoilers e mais detalhes, depois do jump.
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