
Existe uma mania muito feia em séries e filmes brasileiros: os diálogos com português impossível. Nesse mundo irreal, as pessoas falam como se escreve. Dizem “eu estou” em vez de “eu tô”. Não só é uma mania feia, mas inexplicável também. Largar a artificialidade não pode ser uma tarefa tão difícil assim pros nossos roteiristas.
‘Som & Fúria’ não tem nada disso. As pessoas falam o português da vida real. E a entonação da vida real também – porque existe outra mania muito feia que é o tom teatral com que as frases são ditas. Essas falhas frívolas estão muito abaixo do talento de Fernando Meirelles, conhecido pela dedicação aos detalhes.
As características da série que a destacam e a separam da maioria das produções brasileiras (principalmente as de TV, obviamente) transbordam com esnobação. A maior delas é que não se trata de algo feito pra se ver e com passividade. O ritmo ágil exige concentração. Não é só um traço estético, mas também narrativo. Num movimento de câmera pode ter uma piada, e se você pisca é capaz de perdê-la. O humor tem um timing bem pontuado e discreto. Em outras palavras, você ri de uma piada porque ela é engraçada, e não porque é esfregada na sua cara. Essa sutilidade é o grande trunfo de “Som & Fúria”, mas, ironicamente, também o ponto fraco.
A série não se propõe a ser cômica apenas, mas tragicômica também, e trágica também. Um amontoado de pílulas dramáticas, minisubtramas de amor e relações problemáticas e pequenas amostras do não-glamour da vida artística. Mas Meirelles tem muito medo da pieguice. Ele explicitava a preocupação na época do blog de “Ensaio Sobre a Cegueira”. Ele parece achar que filmar um ator chorando por mais de três segundos significa que a coisa vai descambar no melodrama.
Então o timing que ele usa para a comédia é quase o mesmo usado para o drama, como se cada gênero não tivesse suas peculiaridades. O drama muitas vezes precisa de clima, e “Som & Fúria” não é sobre clima. Não há tempo pra você se conectar emocionalmente com certos dilemas. Dá pra fazer uma pessoa rir com três palavras, mas pra deixá-la com lágrimas nos olhos creio ser necessário um tempo pouco maior. Mas pra Meirelles, na busca pela sutilidade, tudo tem que ser tão “ágil” (copyright), tão rápido, tão tricotado, tão passageiro.
O romance entre Maria Flor e Daniel de Oliveira chega a ter algum espaço, mas quando começa a engatar eles saem da série para darem lugar a Débora Falabella e Leonardo Miggiorin, tão deslocados que parecem estar fazendo um favor. Eu não entendi muito bem a relevância do romance deles pra história – talvez a moral seja que gays podem transar com mulheres se eles gostarem de Shakespeare.
Dante (Felipe Camargo) é perseguido pelo fantasma de Oliveira (Pedro Paulo Rangel), um diretor com quem teve problemas no passado – btw, ele é gay também, mas nesse caso a sexualidade não é gratuita, já que explica a obsessão pelo amigo até depois de morto (e rende boas piadas no primeiro episódio). Só que a relação homem-fantasma é tratada por tudo e por todos com hilariante desconfiança, e quando há uma súbita reviravolta e Elen (Andréa Beltrão) inexplicavelmente passa a sofrer de ciúmes das conversas de Dante com o defunto, você só entende que aquilo deveria ser emocionante (ou “dramático”) porque a trilha sonora para de tocar. (Na verdade, num episódio ficamos sabendo que Elen pode ser presa porque tem problemas com a Receita, o que embasaria o seu estresse repentino e a mudança de comportamento, mas olha só, não é o suficiente)
A trilha sonora é equivocada. É chata e didática. É engraçadinha nas cenas que são engraçadinhas e tristinha nas cenas tristinhas. E pior: não cala a boca. Suponho que ela seja necessária pra contribuir com o “ritmo ágil” (copyright) da série. Mas no fim é quase uma compilação de vinhetas que cumprem o papel de embalar cenas de passagem, como se tudo fosse um graaaande trailer com os melhores momentos de um material bruto muito maior. Esperando a versão estendida em DVD.
“Som & Fúria” é uma versão chupada da canadense “Slings & Arrows”, muito menos afetada esteticamente – e por isso mais sem graça, julgando pelos trechinhos que vi. Mas agora me parece que o estilo sóbrio da original talvez seja mais adequado. A versão brasileira usa recursos técnicos dos quais não deveria abrir mão – edição mais fragmentada, câmera tremida, sobreposição de imagens etc. Mas que pelo menos tire personagens, tire subtramas desnecessárias, sei lá, e dedique seu tempo com coisas mais importantes (leia-se: história em vez de imagens bem fotografadas). Começou bem e não decaiu, o produto final é decente, mas o estilo enjoa. E se quase não se sustentou numa temporada inteira, tenho medo do que por vir numa segunda…