“Camarão que dorme a onda leva
Hoje é o dia da caça
Amanhã do caçador”
Quem diria, mas um samba de Beth Carvalho
ajuda a explicar um dos melhores filmes do ano.
Um funcionário público que ao tentar fazer seu trabalho acaba se tornando um alvo de tudo que o cerca: e isso envolve um certo grupo de alienígenas favelados conhecidos como camarões, o governo, o exército e gângsters nigerianos.
Esses são os ingredientes que ajudam a tornar Distrito 9 imperdível.
Ontem finalmente vi esse longa de ficção-científica que chega aqui em outubro e cujo sucesso de público e crítica tem surpreendido o mundo.
É tão bom quanto dizem? A resposta é não. É melhor.

Seja pelo roteiro e pela direção do jovem diretor sul-africano Neill Blomkamp ou pela atuação espetacular do desconhecido Sharlto Copley, essa produção de Peter Jackson é uma obra-prima do sci-fi (e do cinema como um todo) disfarçada de filme pequeno de baixo orçamento.
Preconceito, intolerância, segregação, violência, compreensão. Tudo isso está nessa grande luta por sobrevivência, seja de um homem ou de todo um povo, que Distrito 9 representa.

Logo nos primeiros 5 minutos somos colocados a par de toda a situação: 20 anos atrás uma nave alienígena chegou à Terra
e pairou inoperante sobre a cidade de Johanesburgo. Meses depois, sem nenhum contato com os visitantes, os humanos abriram na força a nave para encontrar milhões de aliens desnutridos e doentes, sem condições de voltar para sua casa.
Dessa forma, os “camarões” (nome pejorativo pelo qual os humanos chamam os aliens, em função de sua aparência física) são assentados em uma área da cidade chamada de Distrito 9, que logo vira um favelão.
E é assim que temos contato com essa realidade “terráqueos x camarões” , que funciona como uma metáfora para as tensões entre raças (ainda mais pela trama se passar na África do Sul, o país onde o Apartheid foi a tônica por décadas).

E com a situação insustentável, as autoridades resolvem que, 20 anos depois da chegada dos camarões, eles devem ser realocados para um campo de refugiados afastado dos humanos. E o homem que vai comandar essa ação de despejo é Wikus Van De Merwe: genro do chefão do departamento que cuida dessa relação entre nós e os visitantes, e um sujeito simples, correto… enfim, um típico bundão.
Um bundão, mas que depois de um incidente na sua incursão ao Distrito 9, se torna o homem mais valioso do mundo para o governo (junto do exército, que conta com seu comandante mercenário badass como grande vilão do filme), para nigerianos que comandam o submundo do crime no Distrito 9 e para os planos de Christopher Johnson, um alienígena que tudo o que quer é voltar para casa.

E é nesse desespero pela sobrevivência depois de ser “traído” por sua própria espécie, caçado como uma cobaia e tendo que rever seus conceitos ao ver como único ser confiável o camarão Johnson (em uma relação que me lembrou o clássico sci-fi Inimigo Meu) que podemos ver essa interpretação perfeita do Sharlto como Wikus.
Com uma atuação assim, já era meio caminho andado. Mas o roteiro também ajuda. Sempre que a gente acha que o que vai acontecer é óbvio, ele vai lá e nos surpreende, sempre de maneira orgânica e nada forçada. E a direção também é impecável, ganhando um tom de documentário que torna aquela realidade ainda mais plausível. Blomkamp também sabe conduzir a tensão e o ritmo de forma perfeita, de um jeito que não dá pra tirar os olhos da tela enquanto torcemos por Wikus, Johnson e seu filhinho.

E não que precise, já que Distrito 9 já se fecha por si só, mas o final ainda abre a possibilidade de que possamos ver daqui a algum tempo (quem sabe 3 anos, pra ficar no número citado no filme) nos cinemas o Distrito 10?
Se for tão bom quanto esse, seria sensacional.
