9/10 2009
Esquizofrenia Tarantinesca ou “Como fazer dois filmes em um”

Algumas pessoas dizem que Quentin Tarantino é tão obcecado em homenagear seus diretores favoritos, que seus filmes acabam virando tributos caricatos a eles. Que falta identidade ao diretor.

E bem, isso não deixa de ser um pouco de verdade em alguns casos, como em Jackie Brown e À Prova de Morte. Mas por esses filmes acabarem funcionando bem ao que se propõem, esse lado mais fanfarrão do Taranta não incomoda.

Só que, talvez pela idade ou por um excesso de referências para homenagear, o diretor acabou errando um pouco a mão em seu novo filme, Bastardos Inglórios.

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Não que o longa (e bota longa nisso – e desnecessariamente) seja ruim, longe disso. Mas a verdade é que parece que ele teve a idéia para dois ou três filmes e não conseguiu nunca se decidir sobre qual fazer, e nem sobre qual levada eles deveriam ter.

Daí, temos momentos para todos os gostos: do contemplativo ao frenético, dos diálogos rasteiros e divertidos aos longos e elaboradamente inteligentes. E se tudo fluísse de forma orgânica, não seria um problema. Mas não flui.

O filme até começa bem promissor, com uma longa cena absolutamente inspirada em Sergio Leone, da escolha dos planos à trilha sonora, passando pelo ritmo da sequência. Cena que já serve para mostrar todo o talento daquele que foi o dono absoluto do filme: Christoph Waltz. Seu Coronel Hans Landas é responsável por provavelmente a melhor interpretação em toda a filmografia do Tarantino. Esqueçam a canastrice do Mr. Blonde de Michael Madsen, ou o sadismo carismático do Bill de David Caradine. Eles são divertidos, claro, mas o Cel. Landas também é. E é mais que isso.

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Essa cena também serve para introduzir Shosanna, interpretada pela belíssima atriz francesa Mélanie Laurent. E se a história de Shosanna e Landas fosse o filme que o Taranta tivesse escolhido fazer, podia ter sido até a grande obra-prima da sua carreira. Mas não…

Em seguida somos apresentados aos tais Bastardos do título, um grupo de soldados liderados por Aldo Raine (Brad Pitt) com o intuito de matar alemães na França ocupada. E embora tenha sido essa a trama que foi mais alardeada em sinopses, cartazes e trailers, é a que menos tem destaque real no filme. Os Bastardos agindo como esperávamos, só acontece uma vez, numa cena até divertida, mas que demonstra a indecisão do diretor.

Afinal, por mais que seja engraçado entrar um lettering setentista em um rápido desvio do filme pra contar a origem de Hugo Stiglitz, esse tipo de piadinha funciona em Kill Bill[bb] ou outros filmes que sigam, inteiros, essa estética e ritmo dos filmes B de trinta anos atrás. Mas colocar isso logo após uma cena à la Sergio Leone soa apenas deslocado.

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Se o Tarantino queria fazer uma mistura dos dois gêneros, que fizesse um meio-termo o filme inteiro, como na cena em que vemos surgindo das sombras o Sargento Donny Dolowitz (feito por um Eli Roth – esse mesmo, o diretor de O Albergue – que cumpre bem seu papel). Ali estão os dois estilos em convergência.

Brad Pitt está… nhé. Nos momentos de puro humor até funciona, como quando tem que fingir ser um italiano. De resto, o badass motherfucker caricato e carismático foi somente o nem tão badass motherfucker assim caricato e pouco carismático. Mas a cena dos “italianos” é hilária mesmo.

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E pra misturar ainda mais, rolou ainda a trama do tenente inglês e da atriz-espiã alemã (a sempre espetacular – e não me refiro à atuação, embora aqui ela esteja ótima – Diane Kruger). O plano em conjunto com os Bastardos, em uma operação que aparentemente foge totalmente do esquema de ação do grupo, parece ser forçada apenas para que a trama deles se juntasse com a de Shosanna no final.

Final que, dentro daquele samba do crioulo doido, acaba ficando divertidíssima. Foi como se o Tarantino dissesse “Ah, já que baguncei isso aqui, vamos escrotizar de vez”.

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E talvez lendo isso aqui você possa achar que tem mais críticas do que elogios. Mas relaxa, durante o filme todo você vai soltar risadas genuínas, graças às iscas que ele joga ao longo de cenas que, em um contexto geral, não são tão boas assim. Que não se sustentam.

E como todas as participações do Cel. Landas são espetaculares, provavelmente todo mundo vai sair do cinema com uma impressão de saldo positivo.

Eu saí assim. Me diverti, é verdade.

Mas nunca um filme do Tarantino mereceu tantas ressalvas quanto esse.

Publicitário, blogueiro, produtor de festa e, pro azar de vocês, piadista.

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