Em 1997, James Cameron
lançou nos cinemas Titanic
, que tinha entre seus personagens a carismática Molly “Não-Afunda”.
Agora, 12 anos depois de ficar sem fazer filmes de ficção, o diretor volta com Avatar
. Mas se a ambiciosa empreitada do auto-proclamado “Rei do Mundo” tinha tudo para dar errado, fiquem sabendo que agora ele merece pegar emprestado o apelido da sua velha personagem.
Afinal, Avatar deu certo. Muito certo. James “Não-Afunda” Cameron acertou mais uma vez, e fez o filme que ninguém pode deixar de ver nessa virada de ano.

Pra começar, vamos falar do que tem sido mais exaltado em torno do filme: tecnicamente, Avatar é espetacular. É a reinvenção do cinema. Depois de ver o longa em 3D, você não é capaz de se imaginar em alguns anos vendo filmes de outras formas (exceto por escolhas artísticas do diretor, como os que até hoje filmam em preto-e-branco, por exemplo).
Com 4 anos de produção (depois de mais de uma década de projeto) e usando tecnologias que foram inventadas só para o filme, Avatar é impecável ao ponto de nunca ser possível saber exatamente o que é real e o que é criado por computadores. Perfeccionismo que foi capaz de criar um planeta Pandora absolutamente fascinante e visualmente fantástico, mas ao mesmo tempo orgânico, realista. As criaturas mais absurdas parecem estar realmente ali. E os Na’Vi, povo humanóide nativo do planeta, não apenas parece real, como foi feito privilegiando as características e expressões dos seus atores. Quando alguém grita de desespero ou olha amorosamente, você não vê um software emulando uma cara: você vê e sente tudo que aquele ser está querendo expressar.

Afinal, e aí que entra o aspecto mais importante de Avatar, James Cameron sabe o que todo grande cineasta tem que saber: que não adianta nada toda a verba de produção e todos os efeitos do mundo, se você não tem um filme que corresponda a eles. O efeito pelo efeito em si, não é cinema, é pilantragem (Ouviu, sr. Emerich? Está lembrando, sr. Lucas?). Os efeitos, embasbacantes (como os de Avatar) ou sutis, devem cumprir uma única obrigação: ajudar a contar bem uma grande história.
E Avatar é uma grande história extremamente bem contada.

Não é necessariamente uma trama que prime pela criatividade. No fundo, é um Dança Com Lobos (menos chato) com pitadas de Matrix
, Star Wars, Alien
(e vale lembrar que o segundo filme da franquia é do próprio Cameron) e até Uma Verdade Inconveniente
. E tem mais, com certeza… ao longo do filme eu ia lembrando, mas com tanta coisa boa pra ver na tela era fácil esquecer depois. No filme, Jake Sully é um ex-fulizeiro paraplégico que pega o lugar do irmão gêmeo falecido em uma missão no distante planeta Pandora, onde uma companhia de energia extrai um mineral valioso. Nesse projeto, o Programa Avatar, ele é conectado a um corpo artificial de um Na’Vi. Se por um lado os cientistas (liderados pela Dra. Grace Augustine – a sensacional Sigourney Weaver, que nem parece ter os 60 anos de vida que tem) usam o projeto para pesquisas e para interagir com os nativos em paz, os militares (através da figura do Coronel Quaritch, que apesar de estereotipado, funcionou bem no contexto geral) querem que Jake se infiltre nos Na’Vi para obter informações estratégicas.
Servindo bem aos dois propósitos, Jake acaba conhecendo a Na’Vi Neytiri, que vê nele um sinal e o leva até seu clã. Ela acaba incumbida de ensinar a ele a cultura do seu povo, e a identificação (e consequente romance) dos dois surge de forma absolutamente natural (o que é uma evolução prum diretor que achou suficiente pra uma aristocrata se apaixonar por um vagabundo, ele levá-la numa festa da 3ª classe do Titanic). E é aí que ele vira de lado e precisa ganhar forças para conquistar a confiança dos Na’Vi e conseguir evitar a tragédia que seu povo está trazendo à Pandora.

Sam Worthington está muito bem, e segura perfeitamente a onda de protagonista. Seja no seu corpo normal como no seu avatar. É excelente acompanhar Jake com uma empolgação genuína ao voltar a andar (mesmo que através do Avatar) ou com uma curiosidade infantil mexendo nas plantas e animais de Pandora. Zoe Saldana, mesmo com a tarefa ingrata de passar o filme todo sob uma máscara digital de Neytiri, também se sai bem demais, e é provavelmente a personagem mais expressiva. Cada cena da Na’Vi tem sentimento à flor da pele. Giovanni Ribisi, como o empresário ganancioso, também está bem, e Michelle Rodriguez parece que finalmente conseguiu achar o tom para fazer uma mulher forte e durona sem precisar parecer um homenzinho.
A mensagem ecológica do filme poderia até soar demagógica e piegas, mas o roteiro é habilidoso em misturar esse tema com algo religioso, tornando a natureza de Pandora quase um equivalente à Força que conhecemos da saga de Star Wars.

E a comparação é justa, afinal Avatar tem a qualidade e a importância que os Star Wars da trilogia clássica possuíam. É cinemão do bom. Uma história forte e uma produção que dá suporte a ela.
É cinema de um jeito que pouquíssimos diretores hoje em dia são capazes de fazer. E por pouquíssimos eu digo: Peter Jackson. Steven Spielberg, quando não está com preguiça.
E claro: James “Não-Afunda” Cameron.
Corram para ver Avatar, de preferência em 3D. É imperdível.
