6/02
2010
Uma sonora decepção
Por Alexandre Esposito em Cinema
Ah, como que queria que os críticos estivessem errados a respeito de Nine. Como eu torci para que todas as opiniões sobre o novo filme de Rob Marshall fossem apenas devido a uma injusta comparação com a 8 1/2, a obra-prima de Fellini que inspirou o musical.
Mas fiz questão de apagar da minha cabeça o clássico italiano e ignorar que esse filme tem qualquer relação com ele. E mesmo assim não teve jeito: Nine é ruim demais.

O roteiro burocrático e a direção óbvia conseguiram até mesmo eclipsar o talento do elenco, encabeçado por Daniel Day-Lewis, talvez o melhor ator da atualidade, e ainda Nicole Kidman
, Sophia Loren
, Marion Cotillard
, Penelope Cruz
, Kate Hudson
e Judi Dench
, além de uma participação da Fergie
.
Day-Lewis não sabe cantar. Isso num musical é grave, e poucos atores no mundo tem a capacidade de fazer com que a gente abstraia esse problema. Ele é um deles, mas não conseguiu, tendo uma atuação tão confusa e irregular quanto o estado de espírito do seu personagem, Guido Contini, um diretor de cinema em decadência que tem um bloqueio às vésperas das filmagens da sua nova obra. A partir daí, sua angústia é pontuada com pinceladas da influência que as mulheres tiveram em sua vida, desde sua falecida mãe (Sofia Loren, no modo automático, o que é uma pena), até sua esposa e sua amante.

Penelope Cruz, como a amante, até que vai relativamente bem. Mais linda e provocante do que nunca, ela é responsável por jogar um pouco de carisma num filme tão insosso e enfandonho, além de contar com uma das poucas falas inspiradas do longa (“Vou ficar te esperando de pernas abertas”). Além dela, Kate Hudson também está ótima. O que aliás, soa irônico, já que sua personagem é uma das que tem menos tempo de tela e não tem importância nenhuma para a história.

Quem sim deveria ter bastante tempo de tela até para ajudar a construir as resoluções do Guido, em especial na reta final do filme, é sua esposa, interpretada pela linda e ótima Marion Cotillard, mas que nesse filme foi sub-aproveitada. Ela em si não foi mal, mas acabou prejudicada pelo roteiro e por ter em seus dois números musicais as duas piores músicas do longa.

Não que as outras fossem muito boas. A verdade é que o repertório inteiro foi chatíssimo, esquecível, o que é um crime para um musical.
Podem perceber: desde Cantando na Chuva e A Noviça Rebelde
até musicais menos ortodoxos, como Rocky Horror Picture Show
e A Pequena Loja de Horrores
, tem sempre umas 3 ou 4 músicas (no mínimo) que você sai cantarolando depois.
Em Nine apenas uma presta: Be Italian, cantada pela Fergie, no papel de uma prostituta que “ensina o que é o amor” para Guido e seus amiguinhos quando crianças.

Be Italian não somente é a melhor música do filme, como também o melhor número e melhor cena. Cinema Italiano é até razoável, mas nada demais. E o grande problema dessas cenas é a falta de criatividade do Rob Marshall. Praticamente todos os números são realizados no mesmo ambiente, o estúdio do Cinecittá. E por mais que tenha sido um recurso estético do diretor, acabou parecendo preguiça.
Pra completar, tivemos Judi Dench e Nicole Kidman sofrendo do mesmo problema que Marion Cotillard: atuações boas, mas que não decolam pelo pouco tempo em cena e pelo roteiro ruim.

Enfim, uma grande decepção e péssimo filme, seja comparando com o clássico de Fellini ou não.













