Robin Hood é um herói que conhecemos por roubar dos ricos para dar aos pobres. E acho no mínimo curiosa a decisão do Ridley Scott em fazer um filme sobre ele, já que aparentemente ele, outrora rico em talento, foi roubado. Pelo menos na questão da criatividade. Esse é um dos dois principais problemas que atrapalham Robin Hood, estrelado por Russel Crowe e Cate Blanchett.

Parece que o diretor de clássicos como Alien e Blade Runner agora só sabe fazer filmes que tentam se parecer com seu último sucesso real, Gladiador. Seja no fraquíssimo Cruzada ou nesse agora, todos os filmes são épicos e têm a mesma estrutura, explorando um contexto político muitas vezes desnecessário para enriquecer a trama e com clímax previsível.
O que recai no segundo grande problema do filme, que na verdade tem sido um problema na maioria das adaptações de histórias clássicas atualmente. Releituras “históricas” de contos famosos viraram moda, e em princípio soam até interessantes. Mas o resultado costuma ser decepcionante, por culpa de roteiros capengas.

Por exemplo, em Tróia tentaram humanizar a Ilíada excluindo a participação dos deuses gregos na história. Considerando que o envolvimento deles é essencial naquela lenda, excluí-los forçou os roteiristas a preencherem as lacunas, e eles simplesmente não tiveram capacidade de construir uma trama à altura do mito. Ficou tosco. Em Rei Arthur, a mesma coisa, e piorada. O que é um absurdo ainda maior, uma vez que a melhor adaptação “histórica” que já foi feita é a excepcional trilogia de livros Crônicas de Arthur, do Bernard Cornwell, que já deveria ter virado filme há muito tempo.
Em Robin Hood, essa tentativa de tornar a lenda mais verossímil do ponto de vista histórica a torna menos interessante, menos charmosa. O filme conta a origem do Robin que conhecemos, antes de ser o famoso ladrão que vive na Floresta de Sherwood e inferniza a vida do Xerife de Nothingham. Aqui, ele ainda é um arqueiro retornando das Cruzadas onde lutou sob a coroa de Ricardo Coração-de-Leão, e que acaba se envolvendo no turbilhão político da Inglaterra, com conflitos internos entre os nobres e o novo Rei João, além de traições para facilitar a invasão francesa.

Enfim, toda essa teia de relações e tramas acaba tornando o roteiro confuso e deixa o filme sem ritmo e sem tempo de aprofundar os personagens mais interessantes e suas relações. A Lady Marion de Cate Blanchett até funciona bem, mas o próprio Robin só ganha um pouco mais de profundidade através de um tosco e desnecessário background relacionado a seu pai. No entanto, Russel Crowe é competente e faz o que pode com um personagem mal-escrito. Seus parceiros clássicos aqui servem apenas de paisagem e alívio cômico, com apenas um pouco de destaque para o Frei Tuck. Mas é triste ver Robin Hood sem o destaque merecido para João Pequeno e Will Scarlet.

A maior prova da escolha equivocada do Ridley Scott é justamente a única cena em que Robin e seus amigos praticam um roubo na floresta, remetendo às suas aventuras clássicas. A cena funciona tão bem que esses 2 minutos acabam mostrando como o resto do filme poderia ter sido melhor.
A melhor coisa do filme acaba sendo a atuação de Max Von Sydow, que torna seu Sir Walter Loxley o único personagem realmente carismático e bem desenvolvido do filme. Uma pena que outros grandes atores não tenham tido a chance de fazer o mesmo, como William Hurt, que não consegue salvar a participação do seu inútil personagem (embora figura histórica verídica).

Para finalizar, o clímax altamente clichê. Às vezes tenho a impressão de que O Senhor dos Anéis fez um mal ao cinema épico. Afinal, desde os grandes momentos no Abismo de Helm ou em Pelennor, todo filme épico acha que precisa ter na sua cena decisiva um exército avançando contra o outro. As pessoas parecem ter esquecido que um final grandioso não tem a ver necessariamente com a quantidade de figurantes envolvidos, e sim com a carga de tensão e emoções envolvidas (vide Luke, Vader e o Imperador em O Retorno de Jedi). O surgimento de um determinado personagem no campo de batalha, então, só serviu para ser a cereja nesse grande bolo de equívocos. Pra que?

Do jeito que eu tô falando, parece até que Robin Hood é um desastre completo, e não é o caso. Durante as 2 horas e pouco do filme, em nenhum momento pensei “Caramba, esse filme é uma merda”. Mas o tempo todo era impossível não imaginar como ele deveria ter sido melhor aproveitado e poderia facilmente ter sido um filme muito superior ao que foi.
É um filme mediano. E quando se tem um personagem como esse nas mãos, isso é inaceitável.