26/08 2010
7 técnicas altamente eficazes para uma viagem (um pouco mais) saudável de ônibus

Por um bom tempo, defini a ida da minha casa até faculdade e trabalho com uma palavra: caos.

Quem depende de condução todo santo dia, sabe bem do que tô falando: ônibus lotados, motoristas abusados, horários aleatórios, engarrafamentos infinitos e pessoas (pessoas?) sem-noção. Puro estresse.

Hoje, após décadas de experiência, desenvolvi um olhar meio budista em relação ao momento. O que era pavoroso se transformou em “experiência antropológica”. De vez em quando engraçado, de vez em sempre lamentável. Mas não dá pra dizer que falta história pra contar.

Juntei minhas percepções e criei algumas dicas para que o seu trajeto diário no coletivo também ganhe uma aura de leveza e completa harmonização mental… Ou não.


Sempre cabe mais um

- Descubra o assento que te faz mais feliz

E repita sempre que puder. Depois de certo tempo, aquele troço vira tipo uma cadeira de estimação, uma das poltronas que a gente cria um afeto, projetada pro cochilo, uma coisa meio casa-da-vovó. Daí, a viagem passa mais rápido, mais tranqüila, mais tenra. (L)

- Lidando com velhinhos carentes

Se você for um bom samaritano ou estiver cavando uma vaga no céu, lide. Do contrário, ignore. O que eles têm de fofinhos, têm de abusados. E se deixar, vão alugar você pra uma espécie de terapia ocupacional, naquele lance de contar sua saga de vida ao longo dos OITENTA E SETE ANOS, quem sabe te acompanhar no trabalho e ainda querer uns afagos.

Olha que aprendi na marra: da última vez que dei confiança a um deles, o velhote simplesmente resolveu me distribuir abraços e pedir um beijo. NÃO, sabe? Uma boa solução é simular um sono profundo. Se o véio falar sozinho: esclerosou.


Vale nada

- Grávida ou Parruda? O Enigma do Século

Muito, mas MUITO cuidado antes de oferecer o assento! Já presenciei uns casos de gente que confundiu e ó, só constrangimento. Dica: barriga não é tudo.

Melhor dar uma checada geral: braços magros, pés inchados, uma lordose braba. Mulher meio que sabe diferenciar. Na dúvida, não ceda. Antes ganhar um tersol, do que ofender uma gordinha feliz.

- Abstraindo o cecê do amiguinho em pé ao seu lado

Essa é pra quem acaba sentado no corredor e no eixo de alcance da nhaca…

A notícia ruim é que não há muito o que fazer. Desenvolva a tolerância. Torça pra estar com nariz entupido. “You’re not alone”.

- Convivendo com a Trilha Sonora

Além do bolsa-escola e bolsa-família, o governo devia investir no bolsa-fone de ouvido. Porque, MEU DEUS, quanta gente já mostra não ter acesso a esse artefato básico, viu? Se a qualidade musical ainda fosse decente, mas normalmente prevalece a total INDECÊNCIA, com muito funk leleske.

Bom, enquanto não podemos fazer uma grande fogueira e promover a destruição dos celulares com Rádio/ MP3, meu conselho é uma boa seleção de músicas e um fone poderoso. Ou se juntar ao cara e ensaiar o ‘Rebolation’ pro próximo fim de festa.

- Foco na conversa alheia

Né por nada não, mas ô, lugarzinho pra divulgar a vida de terceiros – quem foi demitido, quem deu em cima de quem, quem bebeu horrores. Vejo o ônibus como um “EGO” da vida real. Tá cheio de Nelson Rubens por aí.

A diferença de que os personagens também pegam ônibus, ou seja, são pessoas normais como você. Aliás, moram perto de você. E é essa proximidade que torna a conversa alheia ainda mais venenosa – e divertida. Meu vizinho de rua é drag queen. Como eu soube? Aham.


“Eu aumento, mas não invento!”

- Cursos intensivos

Ainda sobre conversa alheia, pense no conhecimento que você deseja aprofundar: Cultura geral, Finanças, Esportes? No ônibus tem de tudo. Desde o cara que é investidor e tá aos berros explicando uma transação de ações, desde as tias fervorosas da igreja, sempre evangelizando suas companheiras. Outro dia, tava ouvindo duas ‘senhouras’ delatando uma terceira que pagou 15 mil pra um pai de santo curar o familiar de uma febrinha.

Pronto, você acaba de descobrir que o babalorixá do terreiro é tão empreendedor quanto o Eike Batista.

Por hoje é só, seus ordinários!

No próximo capítulo: como lidar com aquele cara sonolento e babão prestes a se acomodar no seu ombro.


Pista

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Natália mora no subúrbio e anda de kombi. Ex-publicitária, hoje ganha a vida na fanfarronice, organizando eventos. Um dia vai ser dona de uma praça, e nela, vai reunir todas as flores, objetos e pessoas encantadoras do mundo.

30 Responses to “7 técnicas altamente eficazes para uma viagem (um pouco mais) saudável de ônibus”

  1. Fabiano Neme says:

    É, sei bem o que é isso. Dependo do transporte público para trabalhar e é sempre uma merda.

    Sabe o que eu quero? Dicas de análise de linguagem corporal pra ver se a pessoa que tá sentada está prestes a se levantar ou não, caso já pegue o ônibus cheio.

    [Reply]

    Natália Reply:

    olha, eu SEMPRE penso nisso, mas nunca consegui decifrar ao certo. fico dando uma espiada pra se a pessoa tá mexendo muito as mãos, ajeitando a sacola…sempre pode ser um sinal!

    [Reply]

    alice Reply:

    acho q na verdade o filho da puta q já vai saltar devia demonstrar isso claramente pro primeiro sujeito em pé…

    mas, nãããão… ele fica quietinho até a gente se afastar… e aí levanta bem na hora que os novos passageiros estão entrando e ROUBANDO O SEU LUGAR

    [Reply]

  2. Graças a Deus que essa vida não me pertence mais.

    O pior pra mim é o povo que liga o MP947437489 sem fone mesmo… porque geralmente é o mesmo tipo de gente que tem péssimo gosto musical e nos obriga a aturar gospel ou música de corno por 50 minutos.

    [Reply]

    JuDominguez Reply:

    Descobri que meu ipod toca alto se tirar o fone. Minha técnica é ir pro lado do incoveniente e meter um AC/DC pra competir. EU JURO. Funciona. As vezes ele não desliga, mas pelo menos você descontrai o climão.

    [Reply]

    Gerson Reply:

    já fiz isso uma vez, botaram umas músicas “coloridas” lá, daí dei play num trash metal bem foda…

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  3. uahauhauhauah! porca!

    [Reply]

  4. lisângela says:

    … pro próximo post eu posso ceder uma foto da minha pessoa, eu própria, dormindo e babando em cima de um completo desconhecido no ônibus.

    constrangedor, but true!

    gostei do “you are not alone”…
    todo mundo sofre!

    eu sofria na VAN, tocando JB FM… SEMPRE DJAVAN… SEMPRE uma mulé tosca cantarolando, magoada… sempre…

    p.s.: escritoura! ;)

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  5. raquel says:

    me senti acolhida nesse post.

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  6. Fernanda Bas says:

    Outra dica é sempre levar óculos escuros para poder dormir sem que os outros percebam, a menos que você babe, ronque, ou durma de boca aberta (aff) sempre funciona.
    Se for mulher, lembre-se sempre de encolher a bunda o máximo possível para desviar das encoxadas avulsas.
    Sempre que puder aproveite as promoções de 75 balas por 1 real dos vendedores de ônibus.
    E nunca, nunquinha, caia na conversa da galera que pede dinheiro para comprar remédios para sei lá que ziquizira que a impede de trabalhar.

    [Reply]

    Natália Reply:

    ENCOXADAS! eu precisava de uma lipo pra escapar!

    [Reply]

    alice Reply:

    não sei o que é pior… a encoxada quando você está em pé ou aquele cara nojento, com cecê, se roçando no seu ombro quando você está sentada :~

    [Reply]

  7. Bruno Tavares says:

    Eu sou uma pessoa que dorme e baba nos outros. T.T

    [Reply]

  8. Julia says:

    eu , como gravida, tenho que ficar estufando minha barriga e acariciando ela de uma maneira doentia para conseguir furar a fila/assento preferencial.
    Minha opiniao? Ceda o lugar, mesmo uma gordinha de utero vazio merece descansar as pernocas gigantes dela.

    [Reply]

    Natália Reply:

    sei não…continuo preferindo ganhar o tersol do que machucar um coração com colesterol!

    [Reply]

    alice Reply:

    concordo com a julia uhauaua

    digo mais: os homens deviam sempre ceder lugar para as mulheres

    [Reply]

  9. Guilherme says:

    hahahahahaha
    Não passo mais por isso, mas tb odeio/odiava quando meu ombro era molestado quando estava sentado no corredor…
    Uma dica é se uma velhinha for falar com vc, faça sinais com as mãos como se fosse surdo mudo, e a paz retornará.
    Mas queria uma dica pra saber como evitar ficar olhando pra cara daquelas pessoas que tem uma verruga peluda na cara.Isso causa constrangimento em ambas as partes!

    [Reply]

    Natália Reply:

    pensa que o pêlo a qualquer momento pode te atacar.

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  10. Bruno says:

    Realmente não é nada fácil. Mas praticamente tudo se resolve se você tem cara de psicopata (como muitas pessoas me dizem que tenho), mp3 player, um bom fone de ouvido e, JAMAIS ESQUEÇA DISSO, pilhas reservas. Sempre tenha pilhas reservas para seu mp3, isso evita muita frustração. E se você usa mp3 recarregável, bem, o otário é você.

    A única coisa que realmente não tem solução é o desgraçado fedorento. Procure sempre sentar na janela se te incomoda tanto quanto eu, que sou capaz de simplesmente atirar alguém pela mesma para obter o lugar.

    Quanto ao(a) retardado(a) que encosta e dorme em você, nada que uma boa, e gentil, cotovelada no queixo não resolva. Se você fuma e possui isqueiro/fósforos, atear fogo no cabelo da pessoa também resolve.

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    Natália Reply:

    boa, psicopata! vou testar uma queimadinha no cabelo…

    [Reply]

  11. LPP says:

    Gostei do texto. Parece o tipo de coisa q eu escreveria rsrs. Mas de fato, já passei dessa vida de busão faz um tempo já. Graças a Deus.

    Uma coisa q eu sempre fazia é fingir estar dormindo ocupando duas cadeiras até o onibus ficar lotado. Eu era sempre o ultimo a ter alguém sentado ao meu lado.

    [Reply]

    Natália Reply:

    eu ficaria mei puta com uma pessoa como você, espaçosa. mas cada um com sua técnica! obrigada pelo elogia!

    [Reply]

    Gerson Reply:

    eu geralmente coloco minha mochila do meu lado… só tiro quando começa a encher o busão…

    [Reply]

  12. Natalia Pinheiro says:

    HAHAHAHA Muito bom, Nats! Me identifiquei total!
    Bolsa-fone foi ótemo ;)

    [Reply]

  13. [...] This post was mentioned on Twitter by Fabiana Lovati, Blog Vida Ordinária, btaugusto, Aline Bicudo, Ana Ullmann and others. Ana Ullmann said: Me identifiquei RT @jpggarcia pra quem sofre que nem galinha no caminho do abate. http://bit.ly/9dkf8V [...]

  14. Edu Aurrai says:

    Natália, eu também sei qual é a dessa vida dura. Esse ano tive de me aventurar por uns três meses, diariamente. Tinha dia de chegar no maldito terminal no começo da noite, olhar aquela balbúrdia toda e simplesmente sentar numa cadeira e ficar por lá. O cúmulo do desânimo e da derrota. E o pior realmente é o povo mesmo, né? Bacana o texto. Eu mesmo escrevi algo bastante parecido quando acabou o meu período de tortura há uns cinco meses. É até engraçado como essas tralhas de ônibus são iguais em todos os os lugares. Por falar nisso, gostaria de convidá-la a dar uma lida, até mesmo como terapia de compartilhamento. Se interessar:

    http://www.ninhodamente.com.br/2010/03/personalidades-do-transporte-coletivo.html

    Um abraço.

    [Reply]

    Natália Reply:

    nossa, edu. quantas semelhanças no texto! não sei se rio ou se lamento passarmos pelos mesmos perrengues. se bem que pelo menos você escapa das encaxadas dos pederastas, né?

    valeu o comment!

    [Reply]

  15. ENS says:

    Esses dias eu estava com uma amiga minha no onibus e tinha um muleque ouvindo um funk cabuloso la, ai eu pensei no: bolsa fone de ouvido, também OIHAEOAHEOIAE genial :~

    pena q nem todos tem.
    O melhor jeito de eu poder aproveitar a minha ‘viagem’ dentro de um onibus (afinal, pegar todos os dias 2 onibus para ir para a escola e 2 para voltar) é ler com fone de ouvido.
    assim n escuto nd ao redor, e ainda consigo ler. maravilha.
    ;]

    [Reply]

  16. Victor Marinho says:

    Mt bom,

    concordo com você na questão de se fazer um trabalho antropológico no cotidiano dos coletivos. Alí a vida acontece, milhões de pessoas no Brasil utilizam do transporte público diáriamente, e é nesse momento que passam a se socializarem. O ser humano está cada vez mais individualista e fechado no cotidiano, as pessoas mal se comunicam. Nos ônibus as pessoas trocam ideias se conhecem, partilham experiências. Vai dizer que niguem aqui nunca conheceu alguma pessoa no ônibus ou nunca puxou conversa com alguem. Tudo bem existem muitas pessoas que só tem papo furado, mas eu já conheci muitas pessoas legais no busão (e pra chavecar também não é ruim)

    abraço galera

    [Reply]

  17. rbs says:

    A pior situação que já enfrentei no buzão lotado eu estava espremido no degral e tinha uma gostosa na minha frente e eu de bermuda tactel e sem cueca , o sufoco todo era pra não armar a barraca eu estava quieto no meu canto e ser confundido com um tarado seria vergonhoso e perigoso .

    [Reply]

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