Hoje é quarta-feira de cinzas e quase todo mundo está meio triste, seja pelo fim da folia ou pela volta ao trabalho. Mas essa apresentadora de TV de João Pessoa está bem feliz:
Vocês decidem.
Ok, tô vendo muita gente com reações exageradas aí. Exatamente o que foi o caso da apresentadora, que usa os argumentos mais rasos do mundo pra criticar o Carnaval.
Pra começar, qual o problema do Carnaval não ser uma festa genuinamente brasileira? O Carnaval, como é comemorado aqui, é totalmente diferente do que acontece na Europa. Aliás, que carnaval que acontece aqui? O Brasil comemora dezenas de carnavais diferentes, seja o do desfile de escolas de samba (esse sim inspirado nos carnavais de veneza), o dos blocos de rua, o do frevo e o do maracatu em pernambuco, ou o dos trios em Salvador…
Depois ela diz que é festa de rico. Bem, a maioria dos desfiles e camarotes no Rio e em Salvador são caros sim, mas os dois maiores setores da Sapucaí são justamente de preços populares. E mais: a maior parte do carnaval carioca não acontece na Sapucaí, e sim nos blocos, que são de graça e na rua, acessíveis a TODO MUNDO. Esse ano foram 1 milhão de turistas pro Rio. Na Sapucaí cabem 60 mil pessoas. Onde estavam essas outras 940 mil pessoas? No carnaval popular, de graça, pra todos.
Esse conhecimento de causa que a apresentadora alega se desfaz logo aí. Mas continuando…
E só um minuto, a boa música é calada O ANO INTEIRO. Soa incoerente criticar o carnaval pela proliferação de música ruim, uma vez que, não é só nele que isso acontece e, como em qualquer ocasião, só ouve aquela música QUEM QUER.
E gostos a parte, o carnaval já rendeu pra nossa música alguns dos sambas e marchinhas mais divertidos, musicalmente ricos e até mesmo inteligentes. Só fica preso ao lixo do Foge Foge Mulher MAravilha quem quer.
Essa visão supostamente ampla que ela diz oferecer, convenientemente só se foca em alguns aspectos. Essa tal verdade por trás da folia é só uma meia-verdade.
Ela reclama das ambulâncias de prontidão para os bêbados e brigões. Bem, o serviço público deve estar presente onde está o povo está e onde ele precisa. A falta de uma ambulância para uma mãe necessitada, claro, é um problema grave. Mas a culpa desse problema não é na disponibilização de atendimento pros foliões, que têm o mesmo direito de qualquer outro cidadão, e sim na falta de estrutura do estado.
Mais uma vez ela mira no problema certo, mas acusa os culpados errados.
O mais curioso é que eu fui chamado de machista (ou seja, preconceituoso) por causa do meu comentário “falta de pica”, mas ninguém achou estranho quando ela disse “um trabalhador infartando”. PERAÍ, o folião não é trabalhador? A maioria das pessoas que vi nesse carnaval comemorando são pessoas que trabalham duro o ano inteiro e aproveitam esses 4 diazinhos de folga e de festa para fazerem o que merecem: se divertirem.
Chamar quem aproveita o carnaval de vagabundo não apenas é uma mentira, como é preconceito. Trabalhador não pode beber? Que falso moralismo é esse?
A mesma coisa com a polícia: ela devia criticar a falta de segurança no resto do ano, e não o fato de no Carnaval ela ser feita direito.
Os acidentes causados por bêbados (e pessoas que vivem em excesso no geral) acontecem no Carnaval aos montes sim. Mas também na Semana Santa, no Natal, no Reveillon, e em qualquer outra data festiva. E não só no Brasil, como no mundo todo, as pessoas bebem e se divertem. A falta de consciência e respeito ao próximo não tem nada a ver com a data festiva, e sim com a falta de informação e/ou educação. Tem a ver com gente que não sabe seus limites.
Não com 4 dias de folia.
A mesma coisa com o sexo sem proteção: isso acontece o ano inteiro, e deveria haver campanha para conscientizar o ano inteiro. Se as pessoas trepam mais no carnaval, bom pra elas. E se elas estão fazendo sem proteção, é tão grave quanto seria se fizessem em julho, agosto, dezembro…
Agora, o mais engraçado é quando ela fala do prejuízo, sem apresentar NENHUM dado ou argumento concreto.
Mas eu até entendo porque a maioria aqui apoiou o vídeo vendo assim de primeira. Na internet a gente tem uma tendência a defender qualquer reclamação contra o mainstream.
Só que às vezes é bom prestar bem atenção no que a pessoa diz, pra ver se o que ela está falando tem base ou se é um puro mimimi num discurso raso e limitado.
Se vocês não gostaram que eu tenha escrito no post “falta de pica”, tudo bem. Podem trocar por “falta de discernimento”, “falta de argumento”, “falta de bom senso” ou “falta de vergonha na cara”, que tá valendo do mesmo jeito.
Mas ainda acho que é falta de pica.