18/04
2011
Entendendo a Páscoa
Essa semana vai ser mais curta, e se você está comemorando não ter escola/faculdade/trabalho sexta-feira, deve agradecer ao principal feriado religioso: a Páscoa. Até mesmo você, ateu que por acaso está lendo isso.
E se um feriado desse porte já não fosse o bastante, uma data marcada pela distribuição de chocolate confirma que a Semana Santa merece um post na nossa coluna.

Por isso, vamos dar nossa visão bem-humorada (e por que não dizer: esculachada) de alguns símbolos, costumes e origens dessa data. Na medida do possível, porque sabe como é: se quando a gente fala da Britney ou do Restart por aqui já chove gente fanática reclamando, imagina mexendo com religião?
Mas mesmo assim, hoje vamos entender a Páscoa.
Clique aqui para ler a continuação desse post.
A Páscoa como conhecemos melhor aqui no Brasil, é a celebração da ressurreição de Cristo. Não que eu precise contar isso a vocês, já que vivemos num país predominantemente cristão, e mesmo quem é de outras religiões deve conhecer a história básica de Jesus ou pelo menos viu algum filme.

Não, não, eu quis dizer um filme bom.

Pronto, agora sim, ficou bem melhor.
Mas mesmo falando da figura histórica mais conhecida de todos os tempos, é curioso – e até divertido – imaginar a surreal situação de alguém que não conhece absolutamente nada de Jesus.
Essa pessoa deve ter ficado frustradíssima quando foi assistir A Paixão de Cristo esperando um filme de amor mela-cueca ou uma comédia romântica e se deparou com 2 horas do Mel Gibson realizando sua obsessão por esfolar vivo um judeu.

Pra quem não se lembra.
Pior: essa pessoa desavisada é a mesma que na Sexta-Feira da Paixão veste uma lingerie vermelha achando que “hoje tem!”, né?
Mas deixando essa situação hipotética para trás, é bom às vezes lembrar pro pessoal mais esquecido e/ou anti-semita que Jesus Cristo era judeu, e que a Páscoa já existia bem antes do Nazareno passar pelo mundo.

Por falar em Jesus, ele é muito manero, né?
Aliás, aquela história toda de um prisioneiro ser solto e o povo escolher Barrabás só rolou porque aconteceu durante a comemoração da data. Mas o nome era (e pros judeus ainda é) outro: Pessach.
Resumindo o Pessach em poucas palavras (até porque, se você quisesse muitas palavras, lia o Torá, a Bíblia ou assistia as 4 horas do filme Os 10 Mandamentos), é uma comemoração à libertação dos hebreus do Egito, mais especificamente o episódio em que aconselhados por Moisés, os hebreus pintaram suas portas com sangue de cordeiro para evitar que a décima praga (que matava os primogênitos) os atingissem, e que levou o faraó a finalmente liberar a galera.

Sangue de cordeio nas portas. Sutileza zero. Imagina o egípcio médio passeando pela vila dos escravos e se deparando com um monte de porta ensanguentada. Deve ter batido um cagaço digno de Bolsonaro passeando na Parada Gay.
Agora, o que você deve estar pensando (ou não) é: mas o que raios a ressurreição de Cristo ou a libertação dos judeus têm a ver com coelhos que põe ovos (?!) de chocolate (?!!!), né? Afinal, uma espécie assim conseguiria ser mais bizarra que o ornitorrinco.

“Ornitorrinco da Páscoa, o que trazes pra mim?
Um bico de pato, uma cauda de castor, umas porras bizarras assim.”
E nem adiante justificar que o coelho não bota o ovo, só distribui, porque logística animal é mais difícil de acreditar que mutações biológicas sem noção.
De qualquer forma, até a Geisy Arruda (ok, a Geisy não, mas muita gente) consegue entender que se trata de uma simbologia. O ovo representa nova vida (a ressurreição) e o coelho, originalmente uma lebre, a fertilidade.

Como nasceu o Coelhinho da Páscoa
E essa tradição não vem da Bíblia, sendo na verdade um dos vários costumes herdados pelo cristianismo de rituais pagãos de muitos séculos atrás, ainda na Idade Média, ligados a deusa Ishtar. Só que nessa época a tal Lebre de Eostre servia para ser sacrificada para que as sacerdotisas lessem o futuro em suas entranhas.
Acho que mudaram essa tradição porque entranhas sangrentas não ajudavam muito a vender chocolate, né? Ia afundar o marketing da Nestle.

“Lebre de Eostre, o que suas entranhas trazem de sorte para mim?”
Não, isso não foi uma piada: o verso original era esse mesmo.
No fim das contas o tempo passou, as tradições se adaptaram e hoje tudo mudou. A Páscoa deixou de se tratar do Salvador a humanidade para homenagear o salvador da larica: o chocolate.
Nada contra, eu adoro chocolate, e seria ótimo se o lado comercial da Páscoa se resumisse a isso. Mas nessa época vemos de novo o crescimento da maior enganação gastronômica de todos os tempos: o panetone, agora “disfarçado” de Colomba Pascal.
Pouco importa o nome, o fato é que a Colomba continua sendo um pão que deu errado misturado com frutas cristalizadas. E ninguém normal gosta de frutas cristalizadas.

Fica, vai ter bol… colomba?!
Quer saber? Pode ir embora…
Ainda nos costumes ligados a comida, temos a sexta-feira, onde por respeito à morte de Jesus não se come carne.
Até aí tudo bem, existe uma simbologia por trás, e não é nenhum grande sacrifício deixar de comer um bife um dia. Mas tipo, foda-se o peixe, né? Se eles nadam na própria merda, não merecem desconto na Sexta da Paixão. Pelo menos isso é o que parece.
Por que carne não pode e peixe pode? Aparentemente é porque peixe não tem sangue, e nem sei se isso é verdade, mas pra mim isso parece desculpinha. Algum presidente de associação de pescadores mandou um caô e garantiu com esse papinho o dia mais rentável do ano.

O português que inventou essa ladainha contradiz
todo o estereótipo: foi esperto pacas.
Mas essa época do ano é mesmo cheia de tradições e datas importantes. Uma delas acontece uma semana antes, no Domingo de Ramos, que relembra a chegada de Jesus a Jerusalém, onde em poucos dias ia acontecer toda a história que conhecemos.
O Domingo de Ramos original foi bacana, com uma festa para a chegada Dele, mas eu tenho pena é da galera para a qual todos os domingos são de Ramos: no Piscinão de Ramos e fazendo churrasco na laje.
Aproveitando o espírito da ocasião, podemos dizer que esses jogaram pedra na cruz.

Por falar em jogar pedra na cruz, outra coisa muito comum nessa época são as encenações da Paixão de Cristo em praças ou arenas por todo o país. Dentro da limitação financeira e de espaço, são até muito bem feitas e emocionantes.
Só não entendo porque contratam tantos atores globais para isso. As vozes são gravadas e o público quase sempre fica bem longe dos atores. Não precisa ser famoso ou sequer atuar bem para participar. Podiam botar qualquer um ali que ninguém notaria a diferença. Até, sei lá, o Ricardo Macchi.

Ok, exagerei.
Por fim, vamos falar da tradição mais incoerente da Semana Santa: a malhação do Judas. Para o ateu incauto, não estamos falando de uma série de exercícios de um sujeito chamado Judas numa academia, para depois ir tomar um açaí no Gigabyte com o Mocotó.
Estamos falando da punição simbólica ao traidor de Cristo.
Malhar o Judas meio que popularizou a cultura do ressentimento e da vingança, o que é irônico, uma vez que toda a história da Semana Santa se trata do amor e da salvação da humanidade. Promover linchamento não é lá uma grande demonstração de amor, né? Humanidade, você está fazendo isso errado.
Ainda mais porque a gente aprende que o que Cristo fez foi morrer para salvar a humanidade do pecado. Então vamos ser lógicos: tendo traído Jesus o entregando pros romanos, o Judas não meio que… ajudou Jesus a cumprir Sua missão?

Vim aqui pra te ajudar, chapa!
Tudo bem, os fins não justificam os meios e o cara foi um tremendo traíra, X9 e vacilão.
Mas de qualquer jeito, o cara se arrependeu e se matou. Já pagou o preço há 2 mil anos, e não é dar porrada e atear fogo num boneco recheado de saco plástico de supermercado e jornal que vai adiantar alguma coisa.

Qual o Judas mais feio de todos os tempos? Esse ou o Harvey Keitel?
Disputa acirrada…
No fundo a malhação do Judas se tornou um pretexto pro povão realizar seus desejos profundos de botar a cara de um político no boneco e poder se sentir vingado batendo nele, depois de apanhar 4 anos do filho da puta. Só acho que seria uma vingança mais eficiente se não votassem no sujeito de novo, mas vai entender…
Mas a verdade é que essas tradições todas vão continuar, sejam as realmente religiosas, as “importadas” ou as inventadas para comercializar a data.
Bom para os devotos, bom para os chocólatras e bom para os donos de supermercado que vendem mais chocolate, mais bacalhau, mais colombas e ainda por cima vêem suas marcas ganhando propaganda gratuita estampadas nos bonecos de Judas.
E assim todos ficamos felizes. Menos o INRI Cristo.

Quero só ver se sexta ele vai estar tranquilão assim…
Afinal, toda Sexta-Feira da Paixão ele deve morrer de cagaço de sofrer do mesmo destino do original. Afinal, quem garante que em 3 dias ele também vai voltar?
Bem, se INRI Cristo é eterno eu não sei. Mas bem que as versões místicas das discípulas dele poderiam ser.

“INRI, INRI, INRI… oooooooooooooou”
Boa Páscoa a todos e… se cuida aí, INRI!









HAHAHAHA!! Melhor post da história dessa coluna!
O mais legal é que conseguiu falar de religião sem ofender, curti!
[Reply]
kkkk realmente fazia tempo que a entendendo nao era tao legal
parabens bj
[Reply]
“A Páscoa deixou de se tratar do Salvador a humanidade para homenagear o salvador da larica: o chocolate.”
LOL
[Reply]
LeandroDJC Reply:
April 30th, 2011 at 14:40
Infelizmente é verdade.
[Reply]
religião não é piada
[Reply]
Julia Reply:
April 18th, 2011 at 14:43
aff, ele ate pegou leve, nem zoou religiao
[Reply]
Nana Reply:
April 18th, 2011 at 15:21
Concordo, religião não é piada. Mas para a ‘religião’, nós somos uma grande piada, fica aí a verdade.
[Reply]
LeandroDJC Reply:
April 30th, 2011 at 14:40
O que é piada, é meterem no bedelho do cristianismo um monte de elementos que não fazem parte dele.
Procure qualquer referência a coelhos e ovos na Bíblia, duvido que você vá achar!
[Reply]
Cara, muito bom o texto!
[Reply]
hahahahahahahahaha…muito bom xandão!
[Reply]
Até que em partes podemos concordar, a pascoa foi perdendo o sentido pra maioria das pessoas; parace até que é o dia do ovo de chocolate; ãh quem é jesus? vai saber; mas se tratando de um assunto religioso acho que o texto usou palavras agrecivas; talvez por falta de respeito ao assunto.
[Reply]
Que frase excelente
[Reply]
Só uma correção: o que vocês chamam de “obsessão por esfolar vivo um judeu” foi o que Jesus sofreu de acordo com a Bíblia, Mel Gibson foi Ipsis Literis quanto a isso.
E por Jesus ser Judeu, passou a páscoa judia à frente.
No judaísmo -> Passagem pelo mar vermelho e para a liberdade da escravidão do Egito.
No cristianismo -> Passagem pra vida eterna para a liberdade da escravidão do pecado.
Só isso, de resto post muito bom.
[Reply]