26/02 2012
Histórias Cruzadas, mas pouco ousadas

Compre os direitos de um best-seller, corra atrás de produtores conhecidos, pegue alguns bons atores e conte a história de uma sociedade aparentemente perfeita movida por uma massa de minorias marginalizadas que, em algum momento do roteiro, vão fazer a diferença. Aguarde alguns meses e espere a enxurrada de indicações a prêmios.

The Help, que no Brasil ganhou o nome “como-sempre-fiel” Histórias Cruzadas, é baseado no romance homônimo da escritora estreante Kathryn Stockett e adaptado pelo seu amigo de infância e diretor praticamente estreante Tate Taylor. Na trama, passada durante os anos 1960, a jovem Skeeter Phelan (Emma Stone) pega o diploma de jornalista, enfia debaixo do braço e volta para sua cidade natal, Jackson, no Mississipi. Nesses anos de ausência, suas amigas brancas e perfeitinhas arrumaram maridos brancos e perfeitinhos com filhos brancos e perfeitinhos, todos devidamente servidos pelas empregadas negras e oprimidas.

A inteligente e encalhada Skeeter consegue uma vaga de “Sebastiana Quebra-Galho” no jornal local. Como ela passou os anos anteriores se esfalfando para virar uma formadora de opinião, não sabe lavar um prato. A jovem, então, pede ajuda (The Help, sacou? Ahn ahn?) a Aibileen, empregada de uma de suas amigas de infância. Interpretada pela sempre competente Viola Davis, a doméstica é uma pessoa amargurada por nunca ter realizado seus sonhos e conformada com a eterna condição de subalterna dos brancos dominantes. Ao lado de Aibileen está sua melhor amiga, Minny Jackson (Octavia Spencer), a doméstica que não leva desaforo pra casa.

Quando começa a enxergar todas as injustiças daquele mundo ideal de Jackson, onde as comadres, lideradas por Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), pensam até mesmo em criar banheiros fora de casa para negros, Skeeter resolve expandir seu projeto para um livro contando a história dessa “gente humilde, que vontade de chorar”. Em paralelo, temos a outra outsider da trama, a voluptuosa Celia Foote, que, por não se encaixar aos padrões de moralidade da turminha do chá das cinco, é excluída da vida social da pequena cidade.

Pronto, temos aí todos os elementos para um candidato ao Oscar. Racismo, intolerância, superação, dramas pessoais etc. Não que o assunto seja desinteressante, muito pelo contrário. É aquela velha história: lembrar os erros do passado é uma forma de evitar injustiças futuras.

O problema do filme está nos estereótipos. Skeeter é o já conhecido personagem branco que não se encaixa nos padrões, se aproxima dos oprimidos e os move pra frente. Fazendo uma comparação recente, é a versão interiorana do Jake Sully, de Avatar. Hilly Holbrook, a porta-voz das donas de casa, é a vilã que só está ali para azucrinar a vida alheia. E o resto da sociedade de Jackson está ali compondo o papel clássico e superficial de pessoas influenciadas pelas tradições, pelo comodismo. Sissy Spaceck, inclusive, faz algumas aparições como a mãe de Hilly, e eu prefiro lembrar dela banhada de sangue em Carrie do que como a “velha maluca” deste filme.

E aí temos Viola Davis e Octavia Spencer, ambas indicadas ao Oscar. Nelas está a força de Histórias Cruzadas. Bons atores se destacam mesmo em produções medianas, e elas fazem bonito. As personagens são uma versão açucarada da dupla Whoopi Goldberg/Oprah Winfrey de A Cor Púrpura. Mas, ao contrário do resto do elenco, elas carregam uma força maior na atuação. O balanço entre a suposta passividade de Aibileen e a força de Minny rende bons momentos, principalmente quando ambas estão juntas em cena. Outro destaque é a outra atriz coadjuvante indicada, Jessica Chastain, que também consegue dar uma cor à loirinha segregada Celia Foote.

Alterando um pouco a fala de Aibileen, Histórias Cruzadas não é tão inteligente nem tão bonito, mas é bem espertinho. Tocou no assunto sem remexer muito a ferida, bem do jeito que o pessoal lá de cima adora.

Se os trocadilhos infames tivessem um pai, seria ele.

2 Responses to “Histórias Cruzadas, mas pouco ousadas”

  1. Tatiana D says:

    para mim o filme ‘HISTORIAS CRUZADAS’ é o sinônimo de clichê e acho muito fraco para concorrer ao oscar de melhor filme , porem gostei muito da atuação da atriz Viola Davis , que é a mais provavel ganhadora do oscar na categoria de melhor atriz.

  2. Guilherme G says:

    É um drama que pode sim parecer estereotipado e cheio de clichês para nós brasileiros, que vivemos num país onde a discriminação racial é mais velada, mas é mais próximo da realidade pros norte-americanos, que enfrentaram esse problema social com aspectos mais agudos. Não é uma obra-prima do cinema, mas sem dúvida um filme que vale a pena ver.

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