15/02
2012
O Artista e algo que os outros não têm
Por Alfredo Stadtherr em Cinema

“Às vezes jogávamos bridge. (…) Os outros jogadores eram amigos atores, pessoas inexpressivas, da época do cinema mudo. Eu os chamava de bonecos de cera.”
Em 1950, Billy Wilder lançou o melhor filme ‘de’ e ‘sobre’ Hollywood. Sunset Blvd., que aqui ganhou o poético (porém realista) título Crepúsculo dos Deuses, falava, entre outras coisas, sobre a decadência do cinema mudo, em especial da diva Norma Desmond. A citação que abre este texto acontece em uma cena na mansão da velha atriz, interpretada por Gloria Swanson de forma quase autobiográfica, durante uma partida de bridge jogada por Buster Keaton, Anna Q. Nilsson e H.B. Warner. Todos eles interpretando a si próprios, “deuses” do cinema mudo esquecidos pela plateia e encarados com uma mistura de deboche e aversão pelo jovem roteirista Joe Gillis, personagem responsável pela fala acima.
O final dos anos 1920 foi uma das épocas mais tensas de Hollywood. Atores eram tidos como deuses intocáveis, idolatrados pelos espectadores. Como disse a sra. Desmond: “Naquela época nós não precisávamos de diálogos. Nós tínhamos rostos.” O cinema falado chegou sem pedir licença e acabou com a festa. Os “rostos” muitas vezes não tinham uma pronúncia ou um sotaque adequados, e alguns simplesmente se recusaram a falar. Foi o close-up final de muitos artistas.
É exatamente sobre este período que o diretor francês Michael Hazanavicius fala em O Artista. Ou melhor, não fala! A grande sacada, que gerou todo o barulho em torno do filme, é que ele é mudo e em preto e branco.

A história não traz nenhuma novidade. Jean Dujardin, ator francês até então pouco conhecido, vive o galã George Valentin, ícone do cinema mudo que vê a carreira ameaçada pela chegada dos filmes falados. Do outro lado está Peppy Miller (Bérénice Bejo), atriz iniciante que se aproveita da nova tecnologia para chegar ao topo. O conflito profissional e amoroso dos dois é o que conduz a trama, com a velha lição de respeito e aprendizado mútuo.
O que faz de O Artista um filme cativante é a fidelidade à linguagem do cinema mudo, bem como as constantes brincadeiras sobre as limitações de se fazer um filme (quase) todo sem som. Não há nada de novo, mas o esforço geral é tamanho na reconstituição de época que não há como não se divertir com as caras e bocas dos atores, a trilha que nos faz sair cantarolando na volta pra casa, as piadinhas que são as mesmas de 80 anos atrás e… o cachorrinho, que é uma atração à parte. Ele é responsável pelas cenas mais engraçadas do filme, e não há quem não queira ter um igual.

Há também a constante crítica em relação à substituição do velho pelo novo. Mostrar a rápida transformação do cinema mudo em falado é fazer uma comparação inevitável com as atuais mudanças no mundo dos blockbusters. Assim como há oito décadas, é preciso se reinventar no mercado, sob o risco de ser esquecido totalmente pelo público. E não deixa de ser uma ousadia, em tempos de óculos 3D e som THX, que um filme mudo, feito na França à maneira antiga, seja um dos favoritos ao prêmio de melhor do ano. “Se você quer ser uma atriz, precisa ter algo que as outras não têm”, diz Valentin à iniciante Peppy Miller em um momento da história, e a frase se encaixa perfeitamente a O Artista em relação às outras produções concorrentes.
Os pseudocults sempre ficam a postos pra reclamar de filmes com histórias simples que recebem muitas indicações ao Oscar. Mas o que faz O Artista merecedor de cada uma das 10 indicações* é exatamente o apuro técnico, a preocupação com os detalhes, o empenho de cada ator em reaprender a se expressar da forma antiga, depois de tantas décadas de cinema falado.

Minha sessão foi no Roxy, um cinema de rua do Rio de Janeiro, com mais de 70 anos, frequentado em grande parte por senhorinhas aposentadas. Quis ver o novo clássico da forma clássica. No final, fiquei curioso para ver a reação da platéia, já que, em alguns lugares, espectadores deixaram as salas no meio por não gostarem do fato de ser um filme mudo.
Os aplausos empolgados no final foram a resposta positiva às minhas dúvidas.









amei o filme, é incrível a beleza de algumas cenas simples, como essa da foto onde a peppy se abraça imaginando o george e colocando o braço no terno. lindo, lindo, lindo. adorei o texto tb!
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Acho que o filme será merecedor se ganhar, aliás, junto com Meia-Noite em Paris e Descendentes, torço por ele. Porém, mesmo achando-o magnífico, ainda sinto que faltou algo. Alguma coisa que o alçasse à outro patamar, algo de epifânico, não sei… fiquei com a impressão de que ele é apenas o filme certo na hora certa: em momentos de incertezas, volta-se e homenageia-se a si mesmo. Em todo caso, fiquei todo apaixonadinho por ele, mas como toda paixão, se torna algo muito frágil depois. Crepúsculo dos Deuses e Cantando na Chuva sim, seria amor eterno.
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Eu diria que o problema dele é o excesso de ingenuidade. Se preocupou muito em ser fiel à época e não se permitiu ousar um pouco na história.
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A ingenuidade do filme não me incomodou, até porque combinou com a que existia na maioria dos filmes da época. Em nome da homenagem, acabou ficando perfeito. E tudo é tão charmoso que não é difícil se apaixonar. Essa cena da segunda foto, por exemplo, me deixou sorrindo sozinho como bobo no cinema. Simples e incrível.
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eu adorei o filme!
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É errado dizer que os filmes mudos são “ingênuos”. Não tem nada de ingênuo num Chaplin lançando O Grande Ditador em plena Segunda Guerra Mundial, assim como não tem nada de esperto num Michael Bay jogando robôs gigantes no meio do deserto.
De qualquer forma, O Artista não é ingênuo. Ele tem uma estratégia muito clara de propaganda em se vender como “um pequeno filme francês” concorrendo em meio à mega-produções.
Em primeiro lugar, é uma produção franco-americana. Metade da equipe é americana. O dinheiro é americano. Os intertítulos são em inglês. Até aqui na França ele foi lançado com o título “The Artist”, e não “L’Artiste”.
Em segundo lugar, mesmo que o orçamento dele seja inferior a todos os outros indicados, ele é 5 vezes maior do que o de qualquer “grande produção” francesa, ou mesmo europeia. E quase igual ao de THe Descendants. Além do que, o Jean Dujardin é a maior estrela francesa da atualidade, mesmo antes do lançamento.
Portanto, nada de ingênuo. Esse filme foi pensado, produzido e distribuído com a intenção de passar aos Estados Unidos, ganhar prêmios, etc.
Mas o problema não é esse.
O problema é que “O Artista” é um filminho-inho-zinho-zinho. Ele é bonitinho. Ele é fofinho. Ele é engraçadinho. Eu só consigo falar dele pensando no diminutivo.
Ele é “inho” pela reconstrução técnica, pelo cuidado com os maneirismos. Mas ele não provoca nenhuma emoção. Todo mundo sabe pra onde a história está indo, e ninguém se incomoda porque Ah, ele é tão bonitinho! E o cachorrinho, então?
Mas eu não consigo detestá-lo. Se ele ganhar o Oscar hoje, eu não vou nem ficar puto como em 2005 com Crash (Trash).
O problema tá aí. A aclamação de O Artista é a celebração do mediano, do feelgood, do -inho, daquilo que não faz diferença.
E o argumento “Ah, Hollywood está em crise, e precisa de um filme que a celebre, etc” é furado. Primeiro porque Hugo é muito mais eficiente em homenagear a época clássica e a capacidade de atingir as generações mais novas. Segunda, porque Hollywood teria mais segurança do seu futuro em reconhecer os verdadeiros talentos e a capacidade de invenção.
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De fato, é um filme pensado. Pensado pra ser bobinho, bonitinho, fofinho… ingênuo.
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