22/02 2012
O Homem Que Ama Deixar o Espectador Com o Cu na Mão

Antigamente era “fácil” achar diretores de cinema capazes de encontrarem a atmosfera certa e deixar o espectador sempre tenso, sufocado, e aflito com algum suspense ou até com ação desesperadora.

O maior de todos a fazer isso foi Hitchcock. Mas até mesmo nas gerações recentes temos belos exemplos, como Ridley Scott e James Cameron em seus primeiros trabalhos. Mas hoje em dia, ninguém constrói atmosfera num filme tão bem como David Fincher.

E Millenium – Os Homens Que Não Amavam As Mulheres* é mais uma prova disso.

A direção de Fincher, que merecia ter recebido uma indicação ao Oscar – depois da injustiça da derrota dele ano passado por A Rede Social – é o grande ponto alto desse belo filme, junto da atuação de Rooney Mara, que faz de sua Lisbeth Salander uma das personagens femininas mais interessantes que o cinema viu nos últimos anos.

Nunca li nenhum livro da série Millenium, e nem vi a versão sueca do filme. Sequer tinha curiosidade. Isso até que David Fincher e Rooney Mara me fizeram mudar de ideia com um dos melhores filmes do ano.

*Indicado a 4 Oscars: Melhor Atriz (Rooney Mara), Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Mixagem de Som.

O ponto de partida do filme é o jornalista Mikael Blomkvist, recém derrotado nos tribunais por um empresário que ele acusou de corrupção, sendo contratado por um outro empresário a investigar um caso de desaparecimento/assassinato de 40 anos atrás.

Não demora para que ele acabe tendo como assistente Lisbeth, uma hacker de comportamento exótico que está sob a tutela do estado, e eles percebam que o caso é muito maior: se trata de um assassino de mulheres que vem agindo há décadas.

David Fincher tem muito cuidado ao levar o espectador através de cada pista, de forma que o filme sempre mantém a tensão sem ficar nunca confuso. Mas mesmo com a sutileza na investigação, o diretor não nos poupa dos momentos mais violentos da trama, como durante um estupro e, pouco depois, durante a vingança desse estupro.

A trilha sonora, de Trent Reznor e Atticus Ross (revivendo a parceria com Fincher que já vinha de A Rede Social), ajuda muito nesse clima, seja acentuando a tensão ou simplesmente ficando ausente. O silêncio faz maravilhas para o cinema, pena que ultimamente poucos diretores percebam isso. Não é o caso aqui, felizmente.

Quanto ao elenco, Daniel Craig cumpre perfeitamente seu papel como Mikael, mas como eu já disse ali em cima, é Rooney Mara quem rouba todas as cenas. Lisbeth é tão bizarra, que não seria difícil um personagem assim descambar para a caricatura e se manter distante do público.

Mas ela se entrega de tal forma ao papel que acabamos conseguindo entender de certa forma e criar uma identificação com a heroína, que com seu jeito anti-social (aliás, Fincher está se especializando em protagonistas assim, né?), acaba sendo um poço de carisma. É como se a Lisbeth fosse o lado negro de cada um de nós.

E com uma direção perfeita e uma grande protagonista, é natural que o filme flua bem. Pode ter sido subestimado na temporada de prêmios, mas ainda assim, é melhor do que muitos dos indicados.

Se você gosta de mergulhar no clima de um filme, não dá pra perder. Porque disso, David Fincher entende muito bem.

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Publicitário, blogueiro, produtor de festa e, pro azar de vocês, piadista.

6 Responses to “O Homem Que Ama Deixar o Espectador Com o Cu na Mão”

  1. Ana Lívia says:

    Você achar que esse filme merecia um oscar de melhor direção e achar a Lisbeth da Rooney Mara uma das personagens femininas mais interessantes só prova o quanto a opinião da crítica lá fora mexe com a cabeça de algumas pessoas por aqui. A Lisbeth “original”, como concebida por Stieg Larsson, é deveras mais interessante que essa versão de Rooney. Na frente dela, a personagem desse filme é apagada e sem sal.
    Além disso, se te passasse pela cabeça a quantidade de cenas magníficas deixadas de fora pelo roteiro deste filme que você considera “um dos melhores do ano”, iria correndo à livraria mais próxima para comprar o livro. E assistiria também à versão sueca.

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    Alexandre Esposito Reply:

    Esse é um post sobre o filme, e o filme do jeito que é funciona perfeitamente. Essa percepção da adaptação, só quem leu tem, e normalmente causa um viés na hora de analisar o filme, porque o purismo fala mais alto. São mídias diferentes, visões diferentes, e no meu caso, o que importa é o que o Fincher levou para o cinema. E isso é excelente, independente da personagem do livro ser melhor ou não. Isso é um review do filme, ele que interessa.

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  2. Joao Vítor says:

    Alexandre, Concordo com você, esse filme me surpreendeu… e para ratificar o seu comentário: O que está sendo discutido é o filme que está nos cinemas, não foi mencionada a versão sueca ou a proximidade com a obra literária. Sinceramente, não vi o filme de 2007 (versão sueca) nem li os livros, mas fiquei vidrado nessa personagem logo no início, não é a toa que o nome do filme chama-se (The Girl with the dragoon tattoo). É interessante ver como o conceito de ” Heroína ” foi mudando para uma perspectiva mais realista através dos anos. Tua observação sobre o silêncio foi interessante: ” O silêncio faz maravilhas para o cinema” , A primeira vez q constatei isso foi no filme ” Onde os fracos nao têm vez”
    você tem um senso crítico bastante aguçado, deves gostar um bocado de filmes hein? Dava para migrar da publicidade pro cinema… hehe
    Bom post

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  3. thiago says:

    na versao sueca ou no livro deixa a entender ou esclarese de alguma forma que quem enviou o material que gerou a reportagem inicial e o proceso de difamação contra o Mikael foi a Lisbeth ou foi uma saida usada so na versao americana?

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    Thaís Reply:

    No livro eles explicam como ocorre o processo contra o MIkael. Ele recebe a informação de um amigo e publica a história, só que como ele não tem provas, ocorre o processado de difamação (no livro ele cumpre alguns meses de pena por isso). A Lisbeth só surge na historia depois desse caso, que é quando ela investiga o Mikael pra familia Vanger e o resto da historia é como acontece no filme mesmo.

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    thiago Reply:

    obrigado pela explicação

    se continuar com fincher vou esperar sair a trilogia da versao americana para acompanhar o desenrolar dentro do universo do diretor, depois vejo os livros para ter esse melhor esclarecimento e não estragar a visão que ele tem
    mas entre filmes fodasticos que deixam o espectador com o * na mão ainda fico com o “OLDBOY”
    nunca vi uma critica aqui sobre este filme, acho que até merecia um review na coluna

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