1/03 2012
Laos: tudo o que você não espera, porque não sabe o que esperar

Se alguém mencionar o Laos, que imagem surge na sua cabeça?

No meu caso, eu visualizava árvores, rios e vilas. “Ignorância, óbvio”, pensei. Eu fui no Google Images. Aparecem árvores, rios e vilas. E alguns mapas mostrando um país pequeno e espremido – como uma criança que se perdeu da mãe no shopping – pelos ilustres Vietnã e Tailândia, mais identificáveis por causa das aulas de história e do cinema. Quantos filmes falam sobre eles. Eu amo o cinema da Tailândia. Meu diretor favorito é de lá. Não precisa ter ido pra saber: são lugares maravilhosos. Já o Laos… Não me lembrava do que meus professores falavam, e Wikipedia e Lonely Planet não são exatamente a forma mais eficiente de ficar por dentro do contexto.

Mas eu fui.

Não vou me estender em muitos detalhes, apenas compartilhar minha experiência geral e algumas curiosidades. Foi assim. Peguei um barquinho na Tailândia, atravessei um rio durante cinco minutos e pisei num dos 20 países mais pobres do mundo. E a primeira impressão foi essa: caos. Um balcão com dois policiais que não falavam inglês (exceto “Please wait”, aparentemente) tentava lidar com dezenas de gringos que procuravam (sem sucesso) alguma lógica (tipo uma fila) na plataforma mínima da imigração de Huay Xai, no noroeste. Nenhuma placa dava explicações de como proceder pra obter o visto. Bem, na verdade havia uma que avisava: se você tiver um caso com uma mulher do Laos, será deportado. Uma velhinha europeia gritou: “Venho de um país mais rico”. Se com isso ela queria algum privilégio, jamais saberei.

Foi essa a minha primeira visão no Laos.

21/10 2010
Vida chata

Minha opinião é a seguinte: pode ter sido uma bola de papel, pode ser que tivesse uma pedra dentro da bola de papel, pode ser que alguém tenha jogado pro alto sem a intenção de acertar, pode ser que tenham tido a intenção, pode ser que tenha sentido dor e enjoo e tonteira, pode ser que não tenha sentido nada e simulado tudo por recomendação de assessor, mas você, brasileiro, acha divertido ficar especulando e acusando porque é mais fácil e mais baixo do que se ater aos fatos. Nota só. Quanto mais ignorante e menos politizada a pessoa é, mais importante a invenção sem fins didáticos é pra ela.

A pessoa curiosa – e curiosidade é virtude (acho) – vai até onde a história é importante, assiste aos vídeos e vê as fotos e diz: “Ele mentiu, ele é escroto, não voto nele” (ou o contrário, apenas aja). Já você não vai apurar, prefere retuitar piadas e mandar e-mail pros seus amigos com fonte tamanho 16. Existe uma diferença entre ser curioso e ter uma vida chata. Como disse o Roger Ebert, é muito importante que você estude pra ser alguém interessante, porque você ainda vai passar muito tempo com você mesmo.

15/10 2010
Gente idiota

Você já reparou que, no diálogo mais famoso de “O sexto sentido”, se você substituir “gente morta” por “gente idiota” continua fazendo sentido?

- Eu vejo gente idiota.
- Nos seus sonhos?
- Não.
- Enquanto está acordado?
- Sim
- Gente idiota, tipo em túmulos?
- Andando por aí como pessoas comuns. Eles não se veem. Eles só veem o que querem ver. Eles não sabem que eles são idiotas.
- Com que frequência você os vê?
- O tempo todo. Estão por toda a parte.

Isso vale principalmente para os eleitores idiotas nessa época de eleição. Você não imaginava que seriam tantos. Idiotas amigos seus cuja idiotice você não tinha noção que era tão grande. Porque até a eleição passada não havia Twitter pra você vê-los tuitando coisas idiotas sobre eleição.

26/09 2010
“Filmes gays”

Sempre que começa o Festival do Rio e folheio a programação, vem aquele sentimento misto quando passo o olho em “Mundo Gay”. É a mostra que abrange o que se chama de “filme gay”.

Eu sei, a discussão é velha, mas minha implicância com “gay” funcionando como gênero artístico é atemporal. É uma classificação simplista e, dependendo do caso, um desserviço. Suponho que seja a mesma problemática de qualquer gênero, comédia ou drama: tentar resumir o estilo de uma obra em uma palavra. O meu problema pessoal com “filme gay” é que o que teria a intenção de jogar luz num tipo de cinema com menos expressividade pode acabar tendo justamente o efeito contrário.

Sabe o palhaço que quanto mais engraçado tenta ser, menos engraçado é? É como se quanto mais se tenta rotular um filme de “gay”, menos filme ele parece ser. Eu não sei até que ponto é valido o argumento de que isso se justifica na necessidade de uma minoria se afirmar, eu só sei que se eu fizesse um filme sobre o relacionamento entre dois homens ou mulheres e ele entrasse num festival de cinema como “Mundo Gay” em vez de como, sei lá, “Premiere”, eu ia ficar triste. Pessoas são gays, filmes não.

>Por um lado, eu consigo enxergar alguma lógica na existência desse “gênero”. Geralmente as pessoas que caem no clichê que caio agora de criticar o “cinema gay” dão um argumento clássico: então por que não ter no Festival do Rio um “cinema negro” ou um “cinema ruivo”? Simples.

Primeiro, em termos de mercado, o “cinema gay” tem demanda. Segundo, em termos mais, digamos, humanos, pelo que vejo (sim, todo o meu discurso é baseado em achismo), a sexualidade para as pessoas é importante. Muitos héteros andam com héteros e muitos gays andam com gays (ao passo que não temos provas irrefutáveis de que os ruivos prefiram ser amigos de ruivos, ainda que andem em grupo e sejam perseguidos no mundo da música). Não é regra, mas é uma tendência que estou generalizando para fins didáticos.

Numa época eu não via muito sentido nisso, achava discriminatório por parte de ambos os grupos (gays e héteros): amizades sendo definidas baseadas em com quem as pessoas gostam de dormir em vez de em caráter. Hoje soa mais natural, afinal, se você for hétero, vai querer ir para balada hétero, se for gay vai querer ir para a Farme onde você pode andar de mãos dadas com o namorado sabendo que ninguém vai te espancar ou algo assim. E quando você começa a delimitar os seus programas e o seu estilo de vida, invariavelmente tem mais contato com pessoas que estão fazendo exatamente as mesmas coisas e com as mesmas intenções, aí você forma um grupo em que a sexualidade é um denominador comum. Uma consequência natural, portanto, nada a ver com discriminação.

Uma vez eu fui ver um filme do “Mundo Gay”. Na sessão, só tinha gay. O filme era muito, muito ruim. Eu não entendi o que de “filme” tinha ali. Eu não consegui achar nele qualquer elemento fruto de uma cabeça pensante treinada em linguagem cinematográfica. O roteiro não progredia e não tinha conflito. Não é que eu exigisse uma estrutura narrativa hollywoodiana clássica, começo, desenvolvimento, clímax, fim, acontece que simplesmente não tinha um tema a ser explorado que justificasse a existência daquele filme, ou o tema estava além da minha compreensão – mas nesse caso não creio que tivesse na compreensão de qualquer um naquela sala, me perdoe a pedância. O filme mostrava um casal de homens dentro de um apartamento cozinhando, comprando o pão, dormindo, acordando e vendo televisão, fim. Mas, quando as luzes acenderam, algumas pessoas na plateia estavam chorando.

O que me lembra o hypado “Do começo ao fim”. Um filme mais convencional, mas ainda assim sem muito desenvolvimento, sem conflito, como eu já tinha dito. (aliás, todo mundo disse isso) Dessa vez, a reação do público no final foi ainda mais passional: eu vi pessoas soluçando, realmente emocionadas, precisando de colo.

Então eu passei a brincar que, se eu fosse atribuir o termo “filme gay” a alguma coisa, seria a filmes como esses. O filme tão ruim, tão vazio ou tão não convencional que você não consegue encaixá-lo em nenhum outro gênero, que não soa como comédia, drama ou romance, de modo que só restaria a denominação “gay”. O filme que só tem um compromisso, que não é com o cinema, mas com o público gay, de fazer com que ele veja na tela nada além do que a sua própria vida. O simples fato de acompanhar situações (sem necessariamente serem histórias) envolvendo relacionamento entre gente do mesmo sexo é o suficiente para o gay se identificar. Se identificar não no sentido de que a vida dele é entediante como esses filmes – aliás, eu não estou dizendo que gays só podem se emocionar com filmes ruins, eu só dei exemplos extremistas para provar o teor apelativo/atraente do “filme gay” -, mas no sentido de compartilhar sentimento, o efeito “eu sei como é isso”. Isso é encantador especialmente porque (e agora não é tão mais achismo assim, isso eu ouvi muito) no resto do ano, quando não está tendo um festival com um “Mundo Gay”, o que passa nas grandes salas são comédias, romances, dramas, terrores e suspenses com protagonistas héteros ou em que a sexualidade não importa (estou generalizando de novo).

Por isso o “cinema gay” parece ser tão mágico. O gay, como qualquer ser humano, quer identificação não só no seu grupo de amigos como também na arte. Como as chances de encontrar isso não são frequentes, o jeito é criar as mostras voltadas a esse público, e por isso que elas são tão sujeitas a catarses (eu acho que posso chamar assim).

Como é de se esperar, a realidade não tem a ver com as minhas brincadeiras pessoais. No mundo real, o conceito de “filme gay” é o filme que lida, num extremo, com questões diretamente relacionadas com a homossexualidade e, no outro extremo, o filme que em algum ponto tem um personagem gay coadjuvante. Abrangente o suficiente para incluir filmes realmente bons e interessantes. Tão abrangente que, como efeito colateral e irônico, pode ser excludente. Ou seja, imparcialmente analisando, como eu já disse, existem motivos para separar filmes nessa categoria, mas transformar “gay” em gênero, em uma prateleira de locadora separada da prateleira destinada a “drama” ou “comédia”, ainda que atraia um público interessado especificamente nessa temática, também limita a exposição de seus filmes a níveis ofensivos. Provavelmente a pessoa que entra na locadora querendo pegar um romance não vai na seção gay. Se duvidar, ela possivelmente vai pressupor que a seção, por ter a sexualidade como critério de separação, tem algum teor pornográfico. Um filme sobre o amor entre duas pessoas do mesmo sexo é, acima de tudo, um romance. Por que colocá-lo separado de todos os outros romances “normais”?

Numa comparação estúpida, seria como criar uma seção de “filmes de vampiros”. Não diz nada, tem conotação perjorativa e coloca Crepúsculo ao lado de “Deixe Ela Entrar“, e eu não consigo pensar em dois filmes mais ridiculamente diferentes entre si tanto em qualidade quanto em gênero. Mas, ei, cinema também é mercado.

No fim, o gênero “filme gay” tem lá sua função socioeconômica bonitinha, mas tem também seu lado negro. Na minha balança, a parte negativa pesa mais. Eu concordo que “gay” possa ser uma especificação temática de um gênero, mas não um gênero em si. Quando você cria a categoria “filme gay” crente que está bancando o inclusor social, também está alienando o gay do resto da cultura. É por isso que sessões, prateleiras e mostras de filmes com temática gay continuam sendo frequentadas esmagadoramente por gays. É a sexualidade acima do valor cinematográfico.

Então eu particularmente nunca vou falar sobre um “filme gay”, ainda que a expressão “filme de guerra gay futurista” seja genial o suficiente para me tentar. Se você quiser aliviar a coisa toda com um recurso gramatical simples, um filme sobre gays me soa mais correto. A necessidade de tornar a palavra “gay” em um adjetivo e num gênero artístico provavelmente é reflexo de uma sociedade problemática (eu vinha tentando evitar essa expressão, falhei), onde ser gay é um defeito ou uma virtude – sim, porque tem gente que, por ser gay, se considera superior. Tem até orgulho, como se fosse um mérito.

Não é mérito, é tão natural quanto ter duas pernas, e pelo que me consta ainda não existe uma Parada do Orgulho da Perna Dupla.

Ps.: De qualquer forma, quem sabe no próximo ano a gente não tem uma mostra “Mundo Vampiro” e assim manda as garotas histéricas para sessões bem longe das nossas.

30/05 2010
O que as palmas não fazem…

O Arcade Fire[bb] já lotou estádios, mas só dois dias atrás entrou nos trending topics dos EUA e Canadá, uma passagem que nos tempos atuais meio que oficializa a popularidade de um artista. E eles só precisaram lançar dois singles, que você pode ouvir aqui.

Suburbs” tem um piano saltitante que evolui para um lamento cantado em falsete, basicamente uma estrutura contrária a de várias músicas do álbum Funeral, que terminavam numa mudança de ritmo abrupta e catártica – e que os críticos amaram e tudo.

Month of may” é um punk rock genérico de poucos acordes que fez com que nós, fãs, nos perguntássemos: WTF?! Não é sofisticado nem ambicioso. O caminho que o Arcade Fire tomou no passado é superorquestrado e frequentemente tem surtos de grandiloquência às vezes confundidos, com ou sem razão, com pedância. “MoM” também é agressiva e pesada, e o Arcade Fire não é agressivo e pesado. Ele é fofo, infantil, meloso, animado, calmo.

Mas, saindo do âmbito musical e indo pro pessoal, a história é diferente e os adjetivos são outros. No começo, era lindo. Era 2004, surgiu essa banda com marido e mulher, irmão, três best friends e uma delicada violinista. Uma família reservada. Além disso, a voz da Regine Chassigne era (é) a sonorização da fofura, capaz até de fazer a tragédia no Haiti parecer um evento confortável.

Até que…

O vocalista Win Butler começou a destruir a ilusão criada pela imaginação coletiva da mídia e dos fãs de que eles fossem artistas perfeitos e comprovou aquilo que todos sempre temeram em seus mais terríveis pesadelos: o Arcade Fire era formado por seres humanos. O líder estava sujeito ao mau humor, o baterista a problemas psicológicos e a vocalista ao pior de todos os problemas: a paranoia feminina.

O precursor dessa inversão de valores é um fato simples: fãs não-extremamente animados irritam Win Butler. Ele gosta, ele quer e ele precisa que o público acompanhe suas apresentações com palminhas rítmicas. Isso é tão importante para ele que ele recentemente elegeu os brasileiros o público que melhor bate palminhas. (Obrigado, Win, você não sabe como eu me esforcei naquele show do Tim Festival) Deve ter sido um martírio tocar “Wake up” com David Bowie[bb] no Fashion Rocks e ver só a Heather Graham na plateia de pé fazendo as palminhas.

Um dia, Win Butler não aguentou. Em 2007, durante um show em Seattle, não satisfeito com a não-empolgação do público, disparou: “This isn’t a fucking movie, stand up“. Segundo testemunhas, ninguém riu. Ele queria que as pessoas dançassem enlouquecidamente. Win Butler, te dou uma dica? Componha músicas dançantes.

E quando um fã no meio de um show do Arcade Fire experimenta levantar uma placa pedindo uma baqueta para a coleção dele, o que acontece? “Put away that fucking sign” é o grito que ele recebeu do Win Butler em retorno. A frase virou um viral na internet, naturalmente. Você pode até baixar “Put Away That Fucking Sign [Remix].mp3“, se quiser.

Em outras palavras, eles não souberam lidar com a fama.

Em outro show, o baterista Jeremy Gara (que eu desconfio que seja gay depois que eu vi o jeito que ele fala, embora essa informação seja absolutamente irrelevante para o grande esquema do Universo) decidiu, simplesmente, abandonar o palco durante uma música e não voltou. Espalharam-se boatos nunca confirmados de que ele sofresse de síndrome do pânico. Apesar disso, aquele show continuou. Sem bateria. Como fazer palminhas num show sem bateria, Win Butler? Reflita.

Certa vez um fã pediu um autógrafo para Regine Chassagne, a fofa. Ela mandou ele se fuder. Sim, se-fu-der. Ela assumiu que ele fosse vender o papel no Ebay. Pior, assumiu que alguém fosse comprar o autógrafo no Ebay. (na verdade, eu teria comprado, ok.)

Mas o caso mais épico aconteceu no programa do Jonathan Ross. Após tocar “Keep the car running” (que é super superestimada, btw), Win Butler quebrou uma das câmeras do estúdio e saiu sem se despedir. AO VIVO. Veja o vídeo e repare, lá no fundo, a cara da Regine de “Puta que pariu, eu estou tão constrangida que eu enfiaria agora minha cabeça num buraco se a minha cabeça não fosse tão grande“. Motivo: Win Butler ficou puto de ter ficado esperando a apresentação numa salinha enquanto ele queria estar visitando um amigo. Mas eu entendo, se eu pudesse resolver as inconveniências da minha vida quebrando coisas caríssimas tudo seria bem mais suportável.

Mas nenhuma reputação fica realmente ruim enquanto não houver uma briga, e Wayne Coyne, vocalista do Flaming Lips[bb] (tipo, ele é foda, ok?), fez o favor de armar o ringue. Em entrevista à Rolling Stone, acusou o Arcade Fire de tratarem “as pessoas e o público como merda”. E também disse “They’re pricks, so fuck them“. Assim mesmo.

Depois, Coyne pediu desculpas, disse que se referia mais às “pessoas em volta do Arcade Fire” do que ao Arcade Fire em si. Que pessoas? Tipo… o empresário? Pode ser, já que ele também tem a reputação de ser uma pessoa de pavio curto. Vincent Moon, um documentarista independente que se você não conhecer por nome certamente conhece pelo site dele, o Blogotheque, com dezenas de vídeos de artistas incríveis tocando em ambientes inusitados e/ou glamourosos, disse que o empresário do Arcade Fire, Scott Rodger, era “a pior pessoa possível no mundo da música”. Eu, que por acaso sigo o Scott (ou Mr. Rodgenator, como os fãs gostam de chamar) no Twitter, decidi perguntar o que ele tinha achado dessa declaração. Ele foi honesto na opinão sobre o Moon: “Talented guy and extremely misguided. He could have done something great but too much substance abuse. Stole our cameras too!” Scott, desde quando abuso de drogas anula o talento de alguém? Está faltando Jesus no seu coração.

Em entrevista à NPR essa semana, Win Butler disse que o novo álbum, que lança agora no começo de agosto, é resultado das experiências pessoais que a banda teve desde que a turnê de Neon Bible acabou. O single “Month of may” faz parte dessas experiências e não poderia ser um exemplo mais didático. Eles começaram a gravar o novo CD em 2009, no mês de maio, e a letra é explícita: “Gonna make a record in the month of may, in the month of may, in the month of may“. Mais ainda: “2009, 2010, gonna make a record of how I felt then“. E tem isso: “Now, some things are pure and some things are right / but the kids are still standing with their arms folded tight“. Sério, isso é uma referência ao público que não se empolgava nos shows? Win Butler, você teve mais de um ano pra ter experiências, e no fim das contas é isso o que você tem a dizer? Eu espero que seja uma interpretação errada minha, apesar de me parecer óbvio.

De qualquer forma, eu sou fanboy e acho tanto “MoM” quanto “Suburbs” fodas. Apesar da letra, “MoM” é bem feita e produzida, e se a intenção foi fazer uma música para se acompanhar com palmas e pulos num show, pelo menos fizeram com cuidado. E é uma música honesta, incluindo a agressividade. Eu espero que eles tenham tido muitas experiências nesses últimos anos. A era Bush pariu “Neon Bible”, um álbum que fala de uma época manipuladora e sinistra, e eu gostei do clima. Fiquei com medo que a era Obama resultasse num álbum feliz, e eu sempre achei que o Arcade Fire conseguia atingir a genialidade em seus momentos não-felizes, tipo aqui e aqui. No fundo, eu acho que apoiava toda essa faceta agressiva-escrota que o Arcade Fire revelou com o tempo na esperança de que isso refletisse uma sombriedade nas músicas. Acabou que, pelas amostras, a coisa tá ficando bonita não por uma questão de elas serem felizes ou sombrias ou etc, mas simplesmente por serem boas. E espero que no lançamento de The Suburbs (é o nome do novo LP), o AF entre na porra dos TTs Worldwide (até The National entrou com “High Violet”), senão esse mundo tá perdido.

30/07 2009
Alex Turner parou de gritar

arcticmonkeys_humbug

Olha só, Humbug, o novo álbum do Arctic Monkeys[bb], é, como disse o produtor James Ford, surpreendente. Mas ainda não é o disco em que a banda fica esquisita, cresce e segue em frente.

As músicas ainda têm a marca do grupo – os tradicionais riffs repetitivos-porém-viciantes estão em toda parte, e nesse sentido “Dangerous Animals” e “Potion Approaching” são ouro -, mas ao mesmo tempo estão num humor menos espalhafatoso e mais centrado. Alex Turner deixou a alma de adolescente fluorescente e não precisa mais levantar muito a voz pra levantar o público junto. Ele está mais tranqüilo e maduro agora. Ainda não consigo imaginar Humbug tocando nas Matrizes e Fosfoboxes da vida. E quando a bateria inesperadamente fica propulsiva no finalzinho do álbum, em “Pretty Visitors”, o resultado soa quase como uma obrigação pra com os fãs clássicos. No grande esquema, no entanto, é bom saber que os Monkeys não se deixam seduzir pelo sucesso e poder e optam pelo indispensável ao seu objetivo.

27/07 2009
Nem Tão Bom Assim

http://vidaordinaria.files.wordpress.com/2009/07/som_e_furia.jpg

Existe uma mania muito feia em séries e filmes brasileiros: os diálogos com português impossível. Nesse mundo irreal, as pessoas falam como se escreve. Dizem “eu estou” em vez de “eu tô”. Não só é uma mania feia, mas inexplicável também. Largar a artificialidade não pode ser uma tarefa tão difícil assim pros nossos roteiristas.

‘Som & Fúria’ não tem nada disso. As pessoas falam o português da vida real. E a entonação da vida real também – porque existe outra mania muito feia que é o tom teatral com que as frases são ditas. Essas falhas frívolas estão muito abaixo do talento de Fernando Meirelles, conhecido pela dedicação aos detalhes.

As características da série que a destacam e a separam da maioria das produções brasileiras (principalmente as de TV, obviamente) transbordam com esnobação. A maior delas é que não se trata de algo feito pra se ver e com passividade. O ritmo ágil exige concentração. Não é só um traço estético, mas também narrativo. Num movimento de câmera pode ter uma piada, e se você pisca é capaz de perdê-la. O humor tem um timing bem pontuado e discreto. Em outras palavras, você ri de uma piada porque ela é engraçada, e não porque é esfregada na sua cara. Essa sutilidade é o grande trunfo de “Som & Fúria”, mas, ironicamente, também o ponto fraco.

A série não se propõe a ser cômica apenas, mas tragicômica também, e trágica também. Um amontoado de pílulas dramáticas, minisubtramas de amor e relações problemáticas e pequenas amostras do não-glamour da vida artística. Mas Meirelles tem muito medo da pieguice. Ele explicitava a preocupação na época do blog de “Ensaio Sobre a Cegueira”. Ele parece achar que filmar um ator chorando por mais de três segundos significa que a coisa vai descambar no melodrama.

Então o timing que ele usa para a comédia é quase o mesmo usado para o drama, como se cada gênero não tivesse suas peculiaridades. O drama muitas vezes precisa de clima, e “Som & Fúria” não é sobre clima. Não há tempo pra você se conectar emocionalmente com certos dilemas. Dá pra fazer uma pessoa rir com três palavras, mas pra deixá-la com lágrimas nos olhos creio ser necessário um tempo pouco maior. Mas pra Meirelles, na busca pela sutilidade, tudo tem que ser tão “ágil” (copyright), tão rápido, tão tricotado, tão passageiro.

O romance entre Maria Flor e Daniel de Oliveira chega a ter algum espaço, mas quando começa a engatar eles saem da série para darem lugar a Débora Falabella e Leonardo Miggiorin, tão deslocados que parecem estar fazendo um favor. Eu não entendi muito bem a relevância do romance deles pra história – talvez a moral seja que gays podem transar com mulheres se eles gostarem de Shakespeare.

Dante (Felipe Camargo) é perseguido pelo fantasma de Oliveira (Pedro Paulo Rangel), um diretor com quem teve problemas no passado – btw, ele é gay também, mas nesse caso a sexualidade não é gratuita, já que explica a obsessão pelo amigo até depois de morto (e rende boas piadas no primeiro episódio). Só que a relação homem-fantasma é tratada por tudo e por todos com hilariante desconfiança, e quando há uma súbita reviravolta e Elen (Andréa Beltrão) inexplicavelmente passa a sofrer de ciúmes das conversas de Dante com o defunto, você só entende que aquilo deveria ser emocionante (ou “dramático”) porque a trilha sonora para de tocar. (Na verdade, num episódio ficamos sabendo que Elen pode ser presa porque tem problemas com a Receita, o que embasaria o seu estresse repentino e a mudança de comportamento, mas olha só, não é o suficiente)

A trilha sonora é equivocada. É chata e didática. É engraçadinha nas cenas que são engraçadinhas e tristinha nas cenas tristinhas. E pior: não cala a boca. Suponho que ela seja necessária pra contribuir com o “ritmo ágil” (copyright) da série. Mas no fim é quase uma compilação de vinhetas que cumprem o papel de embalar cenas de passagem, como se tudo fosse um graaaande trailer com os melhores momentos de um material bruto muito maior. Esperando a versão estendida em DVD.

“Som & Fúria” é uma versão chupada da canadense “Slings & Arrows”, muito menos afetada esteticamente – e por isso mais sem graça, julgando pelos trechinhos que vi. Mas agora me parece que o estilo sóbrio da original talvez seja mais adequado. A versão brasileira usa recursos técnicos dos quais não deveria abrir mão – edição mais fragmentada, câmera tremida, sobreposição de imagens etc. Mas que pelo menos tire personagens, tire subtramas desnecessárias, sei lá, e dedique seu tempo com coisas mais importantes (leia-se: história em vez de imagens bem fotografadas). Começou bem e não decaiu, o produto final é decente, mas o estilo enjoa. E se quase não se sustentou numa temporada inteira, tenho medo do que por vir numa segunda…

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