Por um bom tempo, defini a ida da minha casa até faculdade e trabalho com uma palavra: caos.
Quem depende de condução todo santo dia, sabe bem do que tô falando: ônibus lotados, motoristas abusados, horários aleatórios, engarrafamentos infinitos e pessoas (pessoas?) sem-noção. Puro estresse.
Hoje, após décadas de experiência, desenvolvi um olhar meio budista em relação ao momento. O que era pavoroso se transformou em “experiência antropológica”. De vez em quando engraçado, de vez em sempre lamentável. Mas não dá pra dizer que falta história pra contar.
Juntei minhas percepções e criei algumas dicas para que o seu trajeto diário no coletivo também ganhe uma aura de leveza e completa harmonização mental… Ou não.

Sempre cabe mais um
- Descubra o assento que te faz mais feliz
E repita sempre que puder. Depois de certo tempo, aquele troço vira tipo uma cadeira de estimação, uma das poltronas que a gente cria um afeto, projetada pro cochilo, uma coisa meio casa-da-vovó. Daí, a viagem passa mais rápido, mais tranqüila, mais tenra. (L)
- Lidando com velhinhos carentes
Se você for um bom samaritano ou estiver cavando uma vaga no céu, lide. Do contrário, ignore. O que eles têm de fofinhos, têm de abusados. E se deixar, vão alugar você pra uma espécie de terapia ocupacional, naquele lance de contar sua saga de vida ao longo dos OITENTA E SETE ANOS, quem sabe te acompanhar no trabalho e ainda querer uns afagos.
Olha que aprendi na marra: da última vez que dei confiança a um deles, o velhote simplesmente resolveu me distribuir abraços e pedir um beijo. NÃO, sabe? Uma boa solução é simular um sono profundo. Se o véio falar sozinho: esclerosou.

Vale nada
- Grávida ou Parruda? O Enigma do Século
Muito, mas MUITO cuidado antes de oferecer o assento! Já presenciei uns casos de gente que confundiu e ó, só constrangimento. Dica: barriga não é tudo.
Melhor dar uma checada geral: braços magros, pés inchados, uma lordose braba. Mulher meio que sabe diferenciar. Na dúvida, não ceda. Antes ganhar um tersol, do que ofender uma gordinha feliz.
- Abstraindo o cecê do amiguinho em pé ao seu lado
Essa é pra quem acaba sentado no corredor e no eixo de alcance da nhaca…
A notícia ruim é que não há muito o que fazer. Desenvolva a tolerância. Torça pra estar com nariz entupido. “You’re not alone”.
- Convivendo com a Trilha Sonora
Além do bolsa-escola e bolsa-família, o governo devia investir no bolsa-fone de ouvido. Porque, MEU DEUS, quanta gente já mostra não ter acesso a esse artefato básico, viu? Se a qualidade musical ainda fosse decente, mas normalmente prevalece a total INDECÊNCIA, com muito funk leleske.
Bom, enquanto não podemos fazer uma grande fogueira e promover a destruição dos celulares com Rádio/ MP3, meu conselho é uma boa seleção de músicas e um fone poderoso. Ou se juntar ao cara e ensaiar o ‘Rebolation’ pro próximo fim de festa.
- Foco na conversa alheia
Né por nada não, mas ô, lugarzinho pra divulgar a vida de terceiros – quem foi demitido, quem deu em cima de quem, quem bebeu horrores. Vejo o ônibus como um “EGO” da vida real. Tá cheio de Nelson Rubens por aí.
A diferença de que os personagens também pegam ônibus, ou seja, são pessoas normais como você. Aliás, moram perto de você. E é essa proximidade que torna a conversa alheia ainda mais venenosa – e divertida. Meu vizinho de rua é drag queen. Como eu soube? Aham.

“Eu aumento, mas não invento!”
- Cursos intensivos
Ainda sobre conversa alheia, pense no conhecimento que você deseja aprofundar: Cultura geral, Finanças, Esportes? No ônibus tem de tudo. Desde o cara que é investidor e tá aos berros explicando uma transação de ações, desde as tias fervorosas da igreja, sempre evangelizando suas companheiras. Outro dia, tava ouvindo duas ‘senhouras’ delatando uma terceira que pagou 15 mil pra um pai de santo curar o familiar de uma febrinha.
Pronto, você acaba de descobrir que o babalorixá do terreiro é tão empreendedor quanto o Eike Batista.
—
Por hoje é só, seus ordinários!
No próximo capítulo: como lidar com aquele cara sonolento e babão prestes a se acomodar no seu ombro.

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